Iniciativa indígena forma e conscientiza crianças sobre mudanças climáticas

Por Laura Guido. Edição Carla Fischer. Fotos de Kaiti Topramre - Ascom/Coiab.
16/03/2026 07:00

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Enquanto lideranças indígenas se reúnem para debater o futuro da Amazônia e a crise climática, um espaço dedicado às crianças busca garantir que elas também participem dessas discussões. O projeto Cafi Parentinho, implementado durante o Acampamento Terra Livre, tem como proposta ensinar e conscientizar crianças indígenas sobre as mudanças climáticas, fortalecendo espaços de formação e mobilização do movimento indígena.

Criado pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), o Cafi Parentinho é uma iniciativa voltada à formação e ao protagonismo de crianças indígenas. O projeto promove atividades educativas, culturais e diálogos sobre temas que impactam diretamente o futuro das novas gerações. 

Desenvolvido pelo Centro Amazônico de Formação Indígena (Cafi), o projeto foi implementado durante o Acampamento Terra Livre, em Brasília, com o objetivo de ampliar a participação das crianças nos espaços de formação do movimento indígena. A proposta é incentivar reflexões sobre território, cultura, meio ambiente e sustentabilidade desde a infância, além de valorizar a relação ancestral entre os povos indígenas e seus territórios, passada de geração em geração.

De acordo com a diretora pedagógica do Centro Amazônico de Formação Indígena (Cafi), Gracinha Manchineri, a iniciativa nasceu a partir de uma necessidade identificada dentro do próprio movimento indígena. “O Cafi Parentinho surgiu a partir da necessidade detectada pela atual coordenação da Coiab de garantir a participação e a inclusão das mulheres indígenas nos espaços de tomada de decisão, principalmente nos debates que envolvem os territórios durante o Acampamento Terra Livre. Muitas mulheres participam desses espaços acompanhadas de seus filhos, então pensamos em criar um ambiente de formação e acolhimento para as crianças”, explica.

Iniciativas como essa dialogam diretamente com o Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, celebrado hoje, 16 de março. A data foi instituída pela Lei nº 12.533 com o objetivo de promover debates, mobilizações e ações voltadas à proteção do meio ambiente e à preservação dos ecossistemas brasileiros.

As mudanças climáticas correspondem a alterações significativas nos padrões do clima global e são causadas, também, pela atividade humana. A queima de combustíveis fósseis, o desmatamento e práticas agrícolas intensivas que liberam gases de efeito estufa na atmosfera são alguns exemplos de processos que contribuem para eventos extremos cada vez mais frequentes, como secas prolongadas, inundações e ondas de calor. Essas transformações estão associadas a modelos de desenvolvimento que intensificam a exploração de recursos naturais essenciais, como terra, água e energia, colocando em risco a qualidade de vida das gerações futuras.

Diante desse cenário, o projeto Cafi Parentinho surge com a proposta de traduzir esses debates para uma linguagem acessível e próxima da realidade das crianças indígenas, que já vivenciam em seus territórios uma relação com a floresta e com o meio em que vivem.

O projeto também carrega um significado importante em seu nome. Cafi vem do Centro Amazônico de Formação Indígena, e parentinho vem da palavra parente, que é a forma como as lideranças indígenas se cumprimentam e se reconhecem. Segundo os organizadores, as crianças aprendem desde cedo esse sentimento de pertencimento. O termo “parentinho”, portanto, representa as crianças pequenas dentro dos territórios e reforça a ideia de comunidade entre os povos indígenas. 

A metodologia do projeto busca trabalhar com as crianças os mesmos temas debatidos nos espaços políticos do movimento indígena, mas de forma adaptada para a faixa etária. “Todos os temas discutidos na tenda da Coiab, como mudanças climáticas, contaminação da água e mercúrio nos territórios, também são trabalhados com as crianças. A diferença é que usamos metodologias adequadas para cada idade, com atividades lúdicas e educativas”, complementa Gracinha. 

Durante as atividades, as crianças participam de rodas de conversa, intercâmbios culturais e momentos de aprendizado que fortalecem o vínculo com os conhecimentos tradicionais e com a defesa dos territórios. 

O projeto também busca ampliar o debate sobre infância indígena e combater estereótipos relacionados às culturas dos povos originários. O esforço, também, é de conscientização sobre conceitos distorcidos sobre a infância indígena. “A criança indígena precisa brincar, estudar e aprender. A responsabilidade vem naturalmente no processo de convivência com a comunidade, acompanhando os pais nas atividades do território”, acrescenta Gracinha Manchineri ao contestar os estereótipos frequentemente associados às crianças indígenas. 

A atuação do Cafi Parentinho já levou o projeto a espaços de grande visibilidade internacional. Durante a Conferência das Partes (COP30), realizada em Belém, as crianças participaram de atividades na Blue Zone, área oficial de negociações da conferência onde delegações e representantes de diversos países discutiram acordos e estratégias globais de enfrentamento às mudanças climáticas.

Nesse espaço, as crianças apresentaram o “Manifesto das Crianças Indígenas: a resposta somos nós”, construído coletivamente durante uma edição do Acampamento Terra Livre. A carta reúne reflexões, preocupações e mensagens diretas das novas gerações indígenas a líderes mundiais, com destaque para a importância da proteção da Amazônia, o respeito aos territórios indígenas e a valorização dos conhecimentos tradicionais como caminhos essenciais para enfrentar a crise climática. 

Para Gracinha Manchineri, a participação das crianças nesses espaços é fundamental para o futuro da Amazônia. “Formar as crianças hoje significa formar as lideranças do amanhã. Quando elas compreendem desde cedo a importância do território, da floresta e dos conhecimentos ancestrais, elas também se tornam defensoras da vida e da preservação da Amazônia”, afirma.

Ao levar o manifesto à Blue Zone, o projeto reforçou a presença e a voz das crianças indígenas em um dos principais espaços globais de decisão sobre o clima, mostrando que pensar soluções para o planeta também passa por ouvir aqueles que vivem no território, sentem os impactos das mudanças climáticas e são capazes de contribuir para a preservação ambiental a partir da sabedoria ancestral. 

 

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