Guiana: entre a transição e o avanço do petróleo

Texto de Isabel Alarcón. Revisão Carla Fischer. Fotos divulgação.
20/11/2025 10:00

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A dois dias do fim da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), aumenta o número de países que pedem um roteiro para a transição que reduza a dependência de combustíveis fósseis. Até o momento, a Guiana é um dos países amazônicos que apoia a decisão em seus discursos, mas não na prática.  

“Não há dúvidas de que a transição energética para longe dos combustíveis fósseis é necessária, mas a questão é: como fazê-la?”, afirmou Vickram Bharrat, ministro de Recursos Naturais da Guiana, durante seu discurso no segmento de alto nível, no início desta semana. Embora reconheça a necessidade de dar esse passo, as ações locais parecem ir na direção contrária. 

O país, localizado na parte norte da América do Sul, agora é conhecido como “o novo Dubai”, devido ao boom da produção de petróleo, que disparou nos últimos 10 anos. 

Atualmente, a Guiana produz 650.000 barris diários de petróleo e a projeção é que a quantidade dobre até 2027, atingindo 1,3 milhão de barris por dia. Além disso, de acordo com o relatório “Drilling Deeper 2024”, da Global Energy Monitor, a Guiana foi o país que teve o maior número de descobertas de petróleo e gás no mundo em 2022 e 2023, e é o que tem o maior crescimento esperado até 2035. No relatório, o país sul-americano é classificado como a economia produtora mais avançada. 

A pegada da Exxonmobil 
A trajetória da Guiana como país petrolífero começou com a chegada da Exxonmobil. Em 2015, a petrolífera americana encontrou quase 11 bilhões de barris de petróleo nas águas do país. “O tempo tradicional desde que se encontra petróleo até que a primeira gota seja extraída é de quase 10 anos, e a Guiana, em apenas cinco anos, já começou a produzir. É uma expansão petrolífera muito rápida, o que não é tradicional no setor”, diz Carolina Sánchez Naranjo, da Rede do Grande Caribe Livre de Fósseis. 

Sánchez atribui esse crescimento acelerado às facilidades concedidas pelo governo à empresa e à ausência de exigências relacionadas a controles ou responsabilidades ambientais. O contrato inicial foi criticado pela sociedade civil por oferecer amplos benefícios à companhia e poucos ao país. “Era um contrato muito ruim para a Guiana, onde 75% do que era encontrado era levado pela empresa para cobrir custos operacionais”, conta a especialista. 

Após as críticas, as condições do contrato foram modificadas. Somente entre 2019 e 2023, o Produto Interno Bruto da Guiana passou de US$ 5,17 bilhões para US$ 14,7 bilhões, de acordo com dados do Fundo Monetário Internacional. 

Perigo de efeito dominó
No pavilhão da Guiana, instalado na Zona Azul da COP30, grandes cartazes ressaltam o compromisso do país com a transição energética. “A Guiana está liderando o caminho para encontrar soluções para os desafios globais, incluindo segurança climática e alimentar, e segurança energética”. Além disso, eles destacam que “entregaremos uma das transições energéticas mais ambiciosas do mundo”. 

No entanto, o avanço acelerado da extração de petróleo parece estar influenciando outros países da região em sentido oposto. “Há um efeito dominó pelo que está acontecendo na Guiana e isso está pressionando outros países do Caribe”, diz Sánchez. No caso do Suriname, por exemplo, a Total Energies já entrou no país e espera-se que em 2028 inicie suas operações no mar. 

Segundo a especialista, a tendência é que a extração de petróleo continue crescendo em ambos os países, já que ainda há muitos blocos inexplorados. A Guiana também tem um acordo de intenção de exploração com a República Dominicana para que esse país envie suas empresas para explorar um bloco petrolífero. 

A queima de gás é outro problema 
O país tem outro problema: as emissões de metano associadas à queima de gás nas plataformas de petróleo. De acordo com um artigo da InfoAmazonía, com dados da plataforma Skytruth, foram detectados 1.298 episódios de queima de gás entre 2019 e 2023. 

“Há organizações da sociedade civil levantando a voz, mas não há capacidade suficiente para sensibilizar rapidamente sobre o que esse processo significa”, explica Sánchez em relação aos impactos que essa indústria está causando. 

As ações específicas que a Guiana adotará para impulsionar sua transição energética, tema amplamente promovido em seu pavilhão, ainda são incertas, já que o país não apresentou seus novos compromissos climáticos, conhecidos como Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC). Até o momento, a Guiana apoiou a proposta do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês).

 

A cobertura especial do Amazônia Vox na COP30 tem o apoio da Fundação Itaú, Roche e Tereos.

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