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A presença indígena na COP30 vai muito além das mobilizações, marchas e espaços da sociedade civil. Uma nova geração de lideranças, comunicadores e jovens diplomatas ocupa os corredores oficiais da conferência, ampliando a voz dos povos originários em áreas antes dominadas por governos e especialistas técnicos. Entre esses novos protagonistas estão Cristian Wariu, comunicador Xavante, e Sol Tupinambá, jovem liderança dos povos Tupinambá de Olivença e Pataxó.
Ambos integram um movimento crescente que coloca indígenas não apenas como defensores de seus territórios, mas também como tradutores, negociadores e analistas do debate climático global.
Comunicação como ponte: a atuação de Cristian Wariu na COP30
Cristian Wariu, comunicador indígena influente no país, circula pela COP30 com um objetivo que ele define como essencial: traduzir a conferência do clima para quem mais precisa entender seus impactos nos povos indígenas, comunidades tradicionais e populações periféricas.
Nascido no território Xavante de Parabubure (MT) e há mais de oito anos produzindo conteúdo sobre questões indígenas, Cristian explica que seu trabalho começou muito antes da internet. Ele cresceu respondendo perguntas em ambientes não indígenas, escolas, universidades, espaços institucionais, e transformou essa vivência em método comunicacional.
“Eu sempre tive facilidade para explicar temas complexos de forma didática. Na COP, faço exatamente isso: pego um ambiente extremamente técnico e tento torná-lo acessível para os povos que realmente vivem as consequências das mudanças climáticas”, afirma.

Cristian também carrega o legado de seu pai, liderança e cacique em seu território. Dele, herdou a capacidade de construir narrativas fortes, negociar e convencer, algo que hoje aplica ao usar as redes sociais para fortalecer a luta indígena.
Na COP30, ele acompanha negociações, eventos paralelos e anúncios importantes, como o das 20 demarcações em diferentes etapas, consideradas por ele uma vitória geracional. “O movimento indígena sempre foi construído por gerações. A Constituinte, as organizações, agora a comunicação. E eu já penso no que deixo para o meu filho, na próxima geração que vai herdar isso”, reflete.
Diplomacia e território: Sol Tupinambá vive primeira experiência nas negociações
Enquanto Cristian atua como ponte de comunicação, Sol Tupinambá representa outra frente dessa nova presença indígena na COP30, a inserção de jovens lideranças na diplomacia climática.
Sol é integrante do programa Tarikatu, iniciativa do governo federal que leva jovens indígenas para vivenciar e participar ativamente das negociações oficiais. Ela nasceu da mistura de dois povos, Tupinambá de Olivença e Pataxó, e vive na Aldeia Mangaba, na Bahia.
Em Belém, ela celebra um marco histórico: a demarcação de seu território, anunciada um dia antes da entrevista. A conquista é resultado de séculos de luta e da atuação de diversas lideranças, algumas já falecidas, como o cacique Lucas, que dedicou sua vida à demarcação.“É uma vitória que vem desde 1.500 - desde nossos antepassados. É a luta do cacique Marcos, do cacique Jair, do cacique Lucas, do cacique Val, da vice-cacique Catinha. Estou muito feliz de ver isso concretizado aqui”, conta.

Com o Tarikatu, Sol participou de formações sobre procedimentos diplomáticos, mitigação, adaptação e financiamento climático. Acompanhou mesas de trabalho, reuniões com delegações internacionais e debates técnicos, experiências que ela descreve como transformadoras.
“Aprendi a negociar, ouvir e falar em um espaço totalmente diferente do nosso cotidiano. Mas é necessário para garantir que nossas pautas sejam respeitadas”, afirma. Além disso, Sol integra articulações internacionais com povos indígenas da América Latina, do Caribe e do Panamá, ampliando sua atuação para além do Brasil.
Uma nova presença indígena: comunicação e protagonismo
A trajetória de Cristian e Sol evidencia uma transformação significativa: a participação indígena nas conferências climáticas se diversifica e se expande para novos campos. Se antes a presença se concentrava nas mobilizações e espaços da sociedade civil, hoje indígenas ocupam mesas de negociação, fazem análises, atuam na comunicação institucional, compõem delegações oficiais e influenciam diretamente as pautas climáticas, movimento reforçado na COP30, que reúne quase 900 indígenas credenciados, programas de formação em diplomacia e demarcações anunciadas durante o evento.
Cristian representa a dimensão comunicacional, ao traduzir debates técnicos; Sol encarna a atuação diplomática, vivendo sua primeira experiência negociadora. Juntos, mostram que a participação indígena no debate climático global é qualificada, estratégica e vai muito além do estereótipo das marchas e manifestações.
Seja com câmeras ou em mesas de negociação, a atuação de Cristian Wariu e Sol Tupinambá reforça que os povos indígenas não estão apenas defendendo suas agendas, eles estão moldando o debate climático global.
A cobertura especial do Amazônia Vox na COP30 tem o apoio da Fundação Itaú, Roche e Tereos.
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