Florestas alagáveis estão queimando na Amazônia devido às secas extremas

Texto: Letícia Klein e Natália Mello. Edição: Carla Fischer. Revisão Samantha Mendes. Fotos: Marx Vasconcelos.
15/11/2025 09:00

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Cerca de 1,5 milhão de hectares de florestas alagáveis, que não deveriam ser passíveis de queima, foram destruídos pelo fogo nos eventos de seca de 2023 e 2024 na Amazônia. Outros dados recentes revelam que os extremos de calor atingem com mais força as áreas entre Manaus e Roraima, onde estão diversas terras indígenas, como a Yanomami. O alerta de justiça climática é feito pela pesquisadora Joice Nunes Ferreira, que hoje lidera o Centro Avançado em Pesquisas Socioecológicas para a Recuperação Ambiental - Capoeira, responsável pela produção desses dados.

Dedicado à recuperação de ecossistemas desmatados e degradados, o Centro Capoeira é coordenado pela Embrapa e se apresenta como uma das principais contribuições da Amazônia para a ciência, reunindo estudos de mais de 100 pesquisadores de 33 instituições do Brasil e do exterior, entre universidades, órgãos governamentais, ONGs, empresas privadas e coletivos locais. 

Esses e outros dados sobre a região amazônica foram compartilhados em entrevista exclusiva ao Amazônia Vox, em que Joice revela novas evidências científicas sobre a floresta tropical mais biodiversa do mundo, trazendo dados recentes e formas de adaptação para quem vive no bioma. 

Joice é bióloga, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, e cofundadora da Rede Amazônia Sustentável (RAS). Sua área de pesquisa foca na interface entre os usos da terra, resiliência de florestas e a provisão de serviços ambientais na Amazônia, trabalhando com conservação e restauração de ecossistemas e conservação da biodiversidade. 

Para a cientista, "salvar a Amazônia não é apenas preservar um dos maiores reservatórios de carbono do planeta, mas também proteger bilhões de anos de história evolutiva, uma biodiversidade única e a riqueza cultural de centenas de povos indígenas e comunidades tradicionais". Confira a entrevista.

O que é o Centro Capoeira?
É um centro avançado em restauração socioecológica da Amazônia, que conecta diferentes setores, incluindo pesquisadores nacionais e internacionais, comunidades locais e gestores. A ideia é produzir a melhor ciência e fazer a conexão entre todos os atores importantes para a restauração dessas florestas.

Desde que o centro foi lançado, em maio deste ano, que atividades vocês desenvolvem?
O Centro Capoeira foi construído a partir de muitas bases, de muitas redes de pesquisa que já existiam. Nós trabalhamos com ciência de síntese, juntando dados de diferentes parceiros, mas também colhendo os dados no campo. Então, nós trabalhamos a ideia de comparar diferentes estratégias de restauração, trabalhando junto com as comunidades locais. Temos ações com comunidades indígenas, tradicionais e agricultores familiares no Maranhão e no Pará. Temos um trabalho importante também sobre os riscos climáticos. Várias coisas foram feitas fazendo uma avaliação a partir de análise de satélite, de quais áreas estão sob maior risco das mudanças climáticas que afetam a restauração. A gente sabe que a restauração de florestas é uma estratégia de solução às mudanças climáticas, mas, ao mesmo tempo, à medida que a crise climática se agrava, essa solução pode ficar ameaçada, então, a gente mapeia isso também.

O que essas conexões já geraram de resultados?
A nossa intenção é juntar as diferentes soluções e as diferentes camadas, para entender com uma profundidade muito maior. Ao mesmo tempo que eu estou vendo que tem um grupo trabalhando com a capacidade de regeneração ao longo da Amazônia, eu estou avaliando também quais são os riscos, onde tem mais risco de fogo, onde tem mais risco de mudança climática, e eu vou conectar isso com a capacidade de recuperação daquela área e como seria investir nessa área em termos de restauração, de capacidade institucional, de capacidade das pessoas. 

Temos o conhecimento científico, mas a gente sabe da importância do conhecimento tradicional. Então, nós temos os laboratórios vivos que são ecossistemas de inovação, onde a gente faz um espaço de co-construção com as comunidades. Os pesquisadores trazem o seu conhecimento e as comunidades locais também trazem o seu. E a gente vê como se constrói a partir disso. Isso é fundamental. A gente sabe que tem muitas iniciativas, mas muitas ficam isoladas, então a gente quer trazer à tona essas diferentes visões para poder apresentar soluções mais concretas, mais duradouras e mais transformadoras.

Que resultados você pode destacar?
A gente tem a construção dos laboratórios vivos, que são espaços dentro das comunidades, espaços de inovação que o Centro está trazendo. Nós temos resultados também sobre mudanças climáticas, por exemplo, extremos climáticos que estão acontecendo na Amazônia, em regiões importantes. Isso é um dado importante, a gente tem todas as taxas de regeneração natural da Amazônia. Outra questão bem interessante também é como essas florestas em regeneração estão contribuindo para melhorar o microclima local. Tudo isso está surgindo de novo dentro do Capoeira. 

Você está falando de muitos atores. Como é que se amplia a governança territorial e os direitos das comunidades nesse processo? 
O laboratório vivo vai no sentido dessa ampliação. A gente precisa de autonomia dessas comunidades. O que os projetos e programas normalmente fazem é vir com uma ideia pronta, geralmente focando em renda, aumento de renda. Só que, muitas vezes, não se questiona quais são os interesses ou quais são as inovações que aquelas comunidades já estão trazendo. Eu acho que entender que eles já estão vivendo de forma adaptada às condições locais, que existe ali um planejamento e uma inteligência dentro do território dá autonomia e soberania para essas comunidades. Reconhecer isso é a base do sucesso de qualquer projeto de mitigação e de adaptação, porque eles têm muitas respostas. Então é importante ouvir e agregar o conhecimento científico com o conhecimento tradicional. 

Como ampliar ou escalar essas soluções?
Além da autonomia das comunidades, acho que é por meio da conexão de conhecimentos. Algo que é planejado no Capoeira é fazer a conexão entre as comunidades, trazer comunidades da região do Tapajós para o Nordeste para aprender coisas novas, inovações que estão acontecendo lá. Também trocar com os indígenas do Maranhão, com os indígenas aqui do Nordeste Paraense. Não somos nós, pesquisadores, que chegamos lá com as respostas, mas a gente quer fomentar esse ambiente para que haja o diálogo e a troca de conhecimento, tanto da nossa parte como da parte deles.

O que a ciência tem de novo na Amazônia?
A gente está trazendo dados novos todos os dias. Eu vou dar dois exemplos do nosso grupo. A gente mostrou que quando você analisa a temperatura média, você subestima um aspecto muito importante da mudança climática na Amazônia, que são os extremos climáticos. Quando a gente deixou de analisar só a média e analisou os extremos, ou seja, as temperaturas máximas, a gente viu que a área mais atingida não é o arco do desmatamento, mas sim as regiões de Manaus para Roraima, onde estão várias terras indígenas, como a TI Yanomami. Foi um trabalho que saiu do nosso grupo recentemente, mostrando que diferentes olhares, diferentes maneiras de analisar vão produzir respostas diferentes. 

Aquelas comunidades estão ameaçadas. É uma questão de justiça climática, porque não é uma área desmatada, é uma área que tem muita floresta e ainda assim ela vem sofrendo com os extremos de temperatura. A gente também está lançando um outro estudo aqui na COP30 mostrando que 1,5 milhão de ha de florestas alagáveis queimou na seca de 2023 e 2024. As florestas alagáveis são úmidas. Para chegar ao ponto dessas florestas queimarem, significa que a gente está cruzando o limite. 

“A ciência na Amazônia está avançando de maneira muito rápida, porque há muitas pessoas interessadas no assunto, no impacto que tem essa região no nível global, e também por causa da capacidade que a gente está tendo de conectar.”

Esses trabalhos são possíveis porque há grandes redes de pesquisa. Então você consegue trabalhar de forma a produzir um resultado de maior impacto.

Quais são as formas de adaptação que a Amazônia tem ou que podem ser trabalhadas? 
Quando a gente está falando na Amazônia, a principal ameaça são as secas extremas, que aumentam o fogo. Isso é uma consequência da crise climática na Amazônia. Então, nós precisamos de variedades de espécies de cultivares mais resistentes às altas temperaturas. Nós precisamos deixar as paisagens mais resilientes ao fogo. Também precisamos aumentar as barreiras verdes, porque a vegetação acaba gerando uma barreira, e ter mais floresta na paisagem vai expor essas culturas agrícolas a menos calor. Nós precisamos de sistemas de alerta para evitar a passagem do fogo, para evitar a disseminação do fogo, um sistema para prever o risco de fogo antes que ele aconteça. Uma vez que o fogo aconteceu, fica muito difícil controlar. Mas se a gente tem um sistema de alerta, em que a gente pode usar chuva, temperatura, o uso da terra para saber se o risco é baixo, médio ou alto, isso vai orientar as respostas e vai ajudar enormemente essas comunidades a conviverem com a situação de seca e de aumento de incêndios florestais.

O que significa salvar a Amazônia?
Salvar a Amazônia significa salvar um grande reservatório de carbono que, se for queimado ou se for desmatado e for para a atmosfera, vai agravar muitíssimo as mudanças climáticas. Mas, para além disso, 

"Salvar a Amazônia significa salvar bilhões de anos de história evolutiva, uma das maiores biodiversidades do planeta, uma região riquíssima, uma região que tem centenas de povos indígenas, de comunidades tradicionais, que tem um modo de vida que pode ensinar muito para essa sociedade global.”

Nas sociedades ocidentais, entramos nessa crise por conta do nosso modo de viver, e eu acho que eles têm a nos ensinar. A Amazônia é mais do que um grande reservatório de carbono que representa uma solução para a crise climática global. A gente tem um dever ético e moral de proteger esse lugar que a natureza levou milhões de anos construindo e que tem essa biodiversidade imensa, mas principalmente uma diversidade cultural. É um grande laboratório vivo para que todas as sociedades aprendam com esse modo de viver.

 

A cobertura especial do Amazônia Vox na COP30 tem o apoio da Fundação Itaú, Roche e Tereos.

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