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De um lado, obras que deixam um legado positivo necessário à capital paraense. De outro, espaços que desmatam áreas que deveriam ser preservadas, violam direitos dos povos tradicionais e podem abrir espaço para a especulação imobiliária. A avaliação do arquiteto e urbanista Lucas Nassar faz um panorama de como Belém, a sede da COP30, tem se movimentado para receber essa Conferência das Partes (COP30), no próximo mês de novembro.
O tema foi abordado no mais recente episódio do podcast Las Niñas, lançado em 8 de agosto. Nele, Nassar explicou um pouco sobre a sua atuação no Laboratório da Cidade, uma organização sem fins lucrativos que atua, desde 2017, com projetos focados em pensar cidades mais sustentáveis, democráticas e resilientes.
Questionado sobre como tem observado a movimentação de Belém em relação às obras para receber a Conferência, o arquiteto e urbanista acredita que, dessas obras, ficam legados positivos, como o Parque da Cidade, espaço em que vai acontecer a Blue Zone e a Green Zone. “Era um espaço necessário, de fato, é um legado, mas mostrando como existe um potencial grande de construção de comunidade a partir do encontro, que não seja um encontro num shopping center, que seja um encontro, realmente, num lugar de compartilhar” enfatiza.
De acordo com Nassar, Belém é uma cidade que passou, em sua maioria, por uma ocupação informal e, por isso, não teve planejamento para a criação de, por exemplo, áreas verdes públicas. Nesse contexto, o Parque da Cidade, que corresponde a um espaço de um antigo aeroporto no centro de Belém que foi desativado, pode ser um importante legado, além de corresponder a uma área verde, que são espaços que contribuem - em pequena ou grande escala - para manter as temperaturas mais baixas. Um estudo da Universidade Federal do Pará (UFPA), publicado em 2017, por exemplo, demonstrou como áreas com maior cobertura vegetal apresentam temperaturas de superfície até 10 °C mais baixas que regiões altamente urbanizadas.
Lucas Nassar analisou ainda o projeto do Porto Futuro II, que tem como objetivo revitalizar oito galpões que correspondiam à área portuária de Belém e irão receber equipamentos culturais e um centro de inovação para a Bioeconomia. “É uma aposta muito importante essa mudança de matriz econômica aqui na Amazônia, é a ideia de que a Floresta de pé tem que valer mais do que ela no chão, então é um investimento importante”, destaca.
O arquiteto e urbanista considera também como melhoria importante a revitalização da frota de ônibus. Antes do anúncio da COP30, Belém tinha um total 1.100 ônibus, a grande maioria antigos. Agora, está sendo feita uma renovação: “Serão 700 ônibus novos adquiridos, Belém vai passar a ser uma das capitais com a proporção maior de ônibus com eficiência, ou que são elétricos, ou Euro6, que são ônibus que emitem um décimo quinto de um ônibus normal. É menos 10% do que um ônibus normal emite. Então, são, de fato, legados importantes para a cidade”, lembra.
Avanços por um lado, preocupações por outro
Nassar considera que existem investimentos contramão de soluções baseadas na natureza. Dois exemplos citados são: a obra da Avenida da Marinha, que, segundo ele, promoveu o desmatamento de uma área que deveria ser preservada e, a da Liberdade, sobre a qual há um “equívoco” na argumentação. “A obra da avenida da Liberdade, o grande problema dela, é que impacta uma comunidade quilombola, que não foi ouvida, não teve o devido processo respeitado. Outro ponto importante é que ela cria uma área de expansão para a cidade para a especulação imobiliária. É uma área que hoje é preservada, mas que com uma avenida cortando ela, muito provavelmente vai passar por um processo de urbanização, e essa área, sim, precisava ser preservada”, argumenta, colocando os impactos ambientais que essas obras podem causar.
Durante o episódio, as apresentadoras citaram o artigo de Lucas Nassar, que foi publicado no Amazônia Vox, no dia 24 de junho de 2025, em que discute o preço das hospedagens em Belém. Durante o episódio, quando as apresentadoras citam o artigo, destacam a necessidade de conteúdos como este que mostrem as cidades reais do sul global, as suas individualidades e os desafios que a pertencem, tirando alguns estereótipos que, por ventura, possam existir.
Na conclusão do episódio, questionado sobre o que espera para a COP30, Nassar acredita que a Conferência precisa acontecer em Belém. “Nós vamos fazer a nossa parte, aqui, no Laboratório da Cidade para fazer essa mensagem chegar. Todos os países precisam estar aqui, a gente precisa garantir que observadores estejam aqui para a gente garantir a legitimidade. Acho que a palavra correta para a gente trazer aqui é a da legitimidade, a COP não é uma Copa por que não é qualquer pessoa que tem que vir e garantir o hotel, existem grupos que precisam estar aqui para tornar esse evento legítimo, porque se ele não for legítimo, não tem porque ele acontecer”, finaliza.
Escute o episódio do Las Niñas abaixo:
A cobertura especial do Amazônia Vox na COP30 tem o apoio da Fundação Itaú, Roche e Tereos.
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