Déficit de arborização em Belém exige saneamento e melhor gestão de resíduos, aponta pesquisador


21/03/2025 18:00

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Por Natália Mello/ Revisão Carla Fischer - Foto capa: Divulgação

 

Nesta sexta-feira, 21 de março, é celebrado o Dia Internacional das Florestas e da Árvore. Em Belém, a falta de manutenção em árvores centenárias e a ausência de um planejamento urbano adequado para a incorporação de áreas verdes na expansão urbana expõem a fragilidade da cidade na mitigação de um dos principais efeitos das mudanças climáticas: o aumento das temperaturas. Outro fator essencial, segundo o  engenheiro florestal Rafael Salomão, pesquisador do Museu Emílio Goeldi, é a implementação de medidas voltadas para o saneamento e a coleta de resíduos sólidos na transformação desse cenário.


Foto: Engenheiro florestal Rafael Salomão, pesquisador do Museu Emílio Goeldi - Crédito: Janine Valente

A paisagem da capital, escolhida como sede da COP30, sofre com o crescimento desordenado desde o início do século XX. De acordo com os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE/2020), apenas 22,3% dos domicílios urbanos de Belém possuem arborização no entorno. Segundo o  pesquisador, esse percentual coloca a cidade entre as menos arborizadas do Brasil.  

“Belém ocupa a posição 4.499ª entre os 5.570 municípios brasileiros no ranking de arborização urbana, considerando a proporção de domicílios em vias públicas arborizadas. Entre as 27 capitais estaduais do Brasil, Belém também figura entre as menos arborizadas. Na verdade, apenas Rio Branco (AC) apresenta índice inferior ao de Belém – com apenas 13,8% dos domicílios urbanos com arborização no entorno, o valor mais baixo entre as capitais; Belém vem em seguida com 22,3%", situa Rafael Salomão.

Para o engenheiro, para uma mudança de cenário, é preciso um esforço em conjunto  e um desejo muito grande de mudanças estruturais entre o poder público e a população. “É preciso estabelecer um pacto que envolva pelo menos as próximas duas ou três gerações", diz. “O belenense, que respeita e conserva o Círio de Nazaré, precisa olhar para a sua cidade e se perguntar se o que vê é o que quer para si e para suas gerações futuras. Se Belém tivesse em árvores a mesma quantidade que tem em lixo, seria uma das mais arborizadas do Brasil, talvez até a primeira", pondera.

Planejamento a longo e curto prazo

Rafael avalia que o conceito de longo prazo tem que ser entendido como um período de 20 a 30 anos, e que a educação das crianças de hoje é fundamental para que, no futuro, elas  corrijam os pais nos deslizes ambientais que a população está habituada.

"Por exemplo, água encanada nas residências não pode ser dissociada da questão do verde e do lixo. Elas se complementam. Quando se arboriza uma rua com o envolvimento daquela população local, o poder público agrega um aliado que deverá cuidar e conservar aquele patrimônio. As pessoas começam a ver que o local público também ‘lhe pertence’ e que o cuidar dele trará frutos em saúde pública, autoestima, beleza estética e valorização do seu patrimônio. Cria-se a cultura do verde na área de pertencimento público", ressalta.

Já para o curto prazo, pensando no horizonte até 2030, o pesquisador sugere um projeto piloto em que se atue efetivamente na arborização de uma região com escassez de áreas verdes.. “É necessário envolver a população local, explicar o que se deseja como poder público, escutar o que eles pensam como habitantes do local e chegar a um denominador comum que seria selado através de um pacto pelo verde, pelas árvores nas ruas nuas. Paralelamente, nas áreas nobres da cidade, atualizar o diagnóstico do verde e planejar a arborização adequada usando as espécies mais indicadas para cada situação", propõe.

Monitoramento e conservação das árvores existentes 

A doutora em Ecologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Ana Luísa Fares, reforça a importância do envolvimento da comunidade  por meio de programas de educação ambiental e incentivos para o plantio e manutenção das árvores. Para ela, a realização da COP30 em Belém representa uma oportunidade única para fortalecer políticas de sustentabilidade e impulsionar projetos de infraestrutura verde, deixando um legado positivo para a cidade e seus habitantes.

Um dos desafios mais preocupantes, segundo a pesquisadora, é a grande quantidade de árvores que caem anualmente na cidade. “O monitoramento dessas árvores, a identificação de riscos e a prevenção estão sendo feitos de forma eficaz? Algumas espécies apresentam sinais sutis de deterioração e necessitam de avaliação técnica, mas muitas árvores visivelmente debilitadas continuam ignoradas, mesmo após alertas da população", questiona.

Para ela, mais importante do que plantar novas árvores, é cuidar das que já existem. “Muitas dessas árvores têm mais de 50 anos e desempenham um papel essencial na regulação térmica e na melhoria da qualidade de vida da população. Elas não deveriam morrer ou ser removidas por negligência do poder público. Proteger e manejar corretamente essas árvores deve ser uma prioridade na agenda ambiental da cidade", analisa.

Faltando oito meses para o maior evento sobre as mudanças climáticas do planeta, Belém figura entre as capitais menos arborizadas do Brasil. Ana Luísa destaca que as obras de revitalização são fundamentais para melhorar a mobilidade e a qualidade de vida da população, mas devem ser realizadas de forma sustentável. 

"Temos problemas relacionados à escolha de espécies inadequadas para o contexto urbano, além da falta de manutenção das árvores existentes e à ausência de políticas públicas eficazes para a expansão e preservação da cobertura vegetal. Um exemplo recente é a obra na avenida Rômulo Maiorana, que corta um trecho do Bosque Rodrigues Alves. Essa avenida sempre foi muito arborizada, mas, com as obras de revitalização, muitas árvores de décadas foram removidas para dar lugar à pavimentação e áreas de lazer", pontua.

A pesquisadora, bolsista do Programa Bolsas FUNBIO - Conservando o Futuro, do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, diz ter observado pessoalmente o impacto dessa remoção na sensação térmica no trecho entre a Travessa Barão do Triunfo. “Um local antes sombreado agora está muito mais quente”. 

Para transformar esse cenário, é essencial implementar um plano de arborização que priorize espécies nativas adaptadas ao clima e solo da região, além de garantir o manejo adequado das árvores já existentes. De acordo com o pesquisar, o ideal  seria a adoção do plantio de árvores nativas com raízes menos agressivas, que evitam danos ao asfalto e calçadas, e poderiam ser consideradas no planejamento urbano.

“Para reverter esse cenário com urgência, é necessário investir em ações emergenciais, como a implementação de corredores ecológicos, a recuperação de áreas degradadas e a ampliação de parques e praças arborizadas. O plantio de novas árvores em calçadas, praças e espaços públicos deve ser feito de forma planejada, considerando espécies adequadas para evitar conflitos com a infraestrutura urbana", conclui.

 

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