Comunidade Coroca, em Santarém, celebra quase três décadas de preservação das tartarugas. Iniciativa fortalece a renda comunitária por meio do turismo sustentável.
Publicado em 24/09/2025.
Reportagem e produção de Samela Bonfim, com fotos e edição de imagens de Júnior Albuquerque. Edição de texto por Daniel Nardin, Nara Bandeira e revisão de Rodolfo Rabelo, com roteiro de vídeo por Anna Suav. Esta série especial do Amazônia Vox foi viabilizada em parceria com o Instituto Bem da Amazônia com o apoio da Fundação Avina e do WWF-Brasil, através do programa Vozes pela Ação Climática Justa.
Duas batidas com um pedaço de madeira no flutuante ecoam o chamado para as tartarugas na hora da refeição. Aos poucos, mais de cinco mil vão se juntando e dão cor às escuras águas do rio Arapiuns, em Santarém, oeste do Pará. O som é familiar para os bichos que já conhecem o amigo cuidador: Odinaldo dos Santos, o responsável pelos quelônios. De forma carinhosa, ele coordena o calendário de vigilância e monitoramento do lago, além de organizar a alimentação. “A gente está presente, faz o trabalho de conservar o animal, e de segurança”, conta.
Os animais ficam protegidos em um lago na comunidade Coroca, localizada no Projeto de Assentamento Agroextrativista Lago Grande, em Santarém, onde são acompanhados 24 horas por dia por um sistema de videomonitoramento em 360 graus. Instaladas no centro do lago, as câmeras foram posicionadas para identificar a presença de humanos que tentam furtar os animais.
A espécie Podocnemis expansa, conhecida como Tartaruga-da-Amazônia, apesar de protegida pela Lei nº 5.197 de 1967 que proíbe a caça, comércio, abate e consumo, tem alto valor comercial, e atrai a atenção dos invasores. “A gente tem todo o cuidado de fazer o monitoramento para mantê-las seguras aqui dentro do lago”, relata o guia turístico Leandro Vieira.
Essa experiência teve início em 1992, quando o padre alemão José Gross chegou à comunidade e sugeriu a criação de um projeto voltado à preservação das tartarugas. No ano seguinte, a Associação dos Produtores Rurais, Silvicultores, Pescadores e Extrativistas da Comunidade São Raimundo do Arapemã (Aprusipesc) foi formalizada e, em 1998, recebeu três mil filhotes de tartarugas doados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Parte desses animais foi perdida durante uma enchente, em 2000, mas o restante se adaptou ao lago criado na comunidade. “Ficamos com o restante que a gente nem sabe se era 10%. Em 2019, elas começaram a se reproduzir”, lembra Luziete da Silva, diretora social da Aprusipesc.
As primeiras matrizes deram origem a 200 filhotes, em 2019. Nos anos seguintes, a quantidade aumentou: 150 em 2020, 2.910 em 2021 e 2.970 em 2022. Mas, em 2023, a estiagem reduziu a população total para 1.900 filhotes. Nesse ano, a seca do Rio Tapajós atingiu níveis históricos e afetou comunidades ribeirinhas. A situação piorou em 2024, quando a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) declarou situação de escassez hídrica na Bacia do Tapajós.
Mesmo com esse cenário, a comunidade Coroca foi além. Conforme o acordo firmado com o Ibama, 10% dos animais deveriam ser devolvidos aos rios, mas a comunidade passou a devolver 80% da reprodução. Em 2024, foram gerados 2.500 filhotes, e 2 mil foram soltos na natureza. “Hoje, o principal objetivo que a gente tem é a preservação e a conservação da espécie”, lembra Leandro.
As tartarugas se tornaram parte da rotina dos moradores e a preservação das espécies, antes ameaçadas, resultou em um modelo de manejo que também gerou fonte de renda através do turismo de base comunitária.
Os primeiros turistas começaram a chegar nos anos 2000. O turismo de base comunitária se consolidou em 2015, e hoje é responsável por 90% da renda de mais de 70 pessoas de 23 famílias da comunidade. Todas estão envolvidas, de alguma forma, no cuidado com as tartarugas e na recepção aos visitantes: “Nosso trabalho é esse: não só preservar para a comunidade Coroca, mas preservar para o rio Arapiuns, para toda a região e para o Brasil”, ressalta a presidente da associação.
O trabalho de preservação de tartarugas e do turismo de base comunitária é uma iniciativa da comunidade Coroca, que recebe acompanhamento técnico e apoio da ONG Sapopema por meio do Projeto Povos, Rios e Florestas financiado pela Fundação Moore. A Sapopema é uma das sete organizações que compõem a coalizão Vozes do Tapajós Pela Ação Climática.
Conservação das espécies impulsiona turismo na região
A soltura dos animais se tornou um atrativo no ano passado, quando foi realizada a primeira cerimônia pública, com a presença de centenas de turistas e autoridades. Um momento simbólico, quando pessoas de fora da comunidade podem viver a experiência de devolver filhotes ao rio, além de movimentar a economia nas comunidades.
Neste ano, a segunda soltura contou com mais de 450 visitantes. Mais de dois mil animais foram devolvidos ao habitat natural. “Achei muito legal a experiência. Nossa, eu acho incrível, como Santarém vem desenvolvendo esse turismo dentro das comunidades. É uma forma de aproveitar o uso dos nossos recursos naturais”, contou o estudante universitário Miguel dos Santos.
A preservação recebe acompanhamento técnico de profissionais de organizações sem fins lucrativos, como a ONG Sapopema. A bióloga da instituição, Poliane Batista, explicou que a experiência de Coroca é particular, por adaptar o modelo de manejo à dinâmica local. “Todo esse trabalho que tem sido feito durante quase 30 anos tem fortalecido a comunidade em vários aspectos. Na parte social, na parte econômica”, destaca.
Além da criação de tartarugas, a comunidade cria peixes como tambaqui (um dos pratos principais oferecidos no cardápio do restaurante comunitário), realiza o manejo de abelhas sem ferrão e produz artesanato com a palha de tucumã trançada. Os itens são comercializados em uma lojinha comunitária que reúne as produções, e são expostos aos visitantes durante a expedição guiada.
Ao longo do trajeto, o turista ouve explicações dos guias turísticos que resgatam a história de cada atividade e a relação com a natureza. “É muito importante porque hoje o nosso projeto sobrevive dos visitantes. Eles deixam suas contribuições e é com essas contribuições que a gente mantém os nossos projetos vivos”, comenta Luziete.
Como chegar
O percurso até a comunidade Coroca em Santarém é feito por via fluvial. É possível alugar lancha de passeio, e se deslocar em um trajeto de pouco mais de uma hora, com saída dos piers da cidade, ou por barco de linha, com duração de aproximadamente seis horas. Turistas podem contactar as redes sociais da comunidade para agendar visitas e realizar consultas: Comunidade Coroca; Trancados do Arapiuns; Restaurante Pés na Areia.
Resumo da solução
Problema
A Tartaruga-da-Amazônia (Podocnemis expansa) esteve historicamente ameaçada pela caça ilegal, pelo comércio e pela degradação ambiental, fatores que reduziram drasticamente suas populações naturais. Mesmo protegida por lei, a espécie continuou sendo alvo de invasores devido ao alto valor comercial. Além disso, eventos climáticos extremos, como secas severas no Rio Tapajós, têm agravado a situação, afetando a reprodução e a sobrevivência dos filhotes, ameaçando tanto a biodiversidade quanto a subsistência de comunidades ribeirinhas.
Resposta
Diante desse cenário, a comunidade extrativista de Coroca desenvolveu um modelo de manejo comunitário voltado para a preservação das tartarugas, aliado ao turismo de base comunitária. A iniciativa combina vigilância permanente, monitoramento tecnológico e devolução de até 80% dos filhotes à natureza. Ao mesmo tempo, a atividade turística tornou-se fonte de renda para dezenas de famílias, gerando inclusão social e fortalecendo a economia local de forma sustentável.
Por que isso é uma solução climática?
Essa iniciativa é uma solução climática porque promove a conservação da biodiversidade e o uso sustentável dos recursos naturais. Ao proteger as tartarugas e seu habitat, a comunidade Coroca está ajudando a manter o equilíbrio do ecossistema e a mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Além disso, o turismo de base comunitária gera renda para os moradores sem comprometer a sustentabilidade do meio ambiente, o que é um exemplo de desenvolvimento sustentável e justa ação climática.