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Entre histórias, fé e praias, Porto Nacional revela o Tocantins pelo caminho do rio

Da expansão de Luzimangues ao centro histórico tombado, o roteiro turístico cultural passa por praias de água doce, caminhos de fé, bonecos gigantes, pesca esportiva - e revela como o Rio Tocantins atravessa a cultura, a memória e o futuro do turismo local.

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Reportagem de Kécia Garcia Ferreira.
Edição de texto por Carla Fischer e Revisão de Natália Mello.
Coordenação de produção por Luciene Kaxinawá.
Imagens de Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior. Produção: Tocantins Filmes.
Revisão audiovisual de Anna Suav.
Edição final audiovisual de Márcio Nagano.
Este conteúdo integra a série Destino Amazônia, realizada pelo Amazônia Vox com apoio do Sicredi e do Sebrae.

Publicado em 23/09/2026 09:00

No centro do Brasil, o Tocantins reúne duas características que ajudam a explicar a paisagem que o visitante encontra: é o estado mais novo do país, criado pela Constituição Federal de 1988, a partir do desmembramento do norte de Goiás, e tem a capital mais jovem do país, Palmas. Para entender um pouco de como esse território se formou e como ele se apresenta hoje, é preciso olhar também para uma cidade que já existia muito antes de Palmas: Porto Nacional.

À primeira vista, chegar a Porto Nacional saindo da capital pode parecer simples demais. Basta atravessar a ponte sobre o Rio Tocantins e, em poucos minutos, já se está em outro município. No entanto, esse primeiro contato acontece por Luzimangues, distrito que pertence ao município e foi criado em 1993 e hoje integrado à dinâmica de crescimento da região metropolitana de Palmas. É um território bem diferente de Porto Nacional, conhecido por suas igrejas antigas, dos casarios e das histórias que atravessaram séculos.

Balneário Lago Azul
Entrada de Porto Nacional marca a chegada à cidade histórica do Tocantins.
Crédito: Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior.

A porta de entrada: Luzimangues

Luzimangues funciona como uma espécie de porta contemporânea de Porto Nacional. O distrito fica a poucos minutos do centro de Palmas e cresceu voltado para a capital, embora administrativamente pertença a Porto Nacional. O contraste é imediato: de um lado, a última cidade planejada do fim do século XX; do outro, um território que se expande rapidamente e que já faz parte da rotina de quem trabalha, mora ou circula entre os dois municípios.

Foi por ali que começou o percurso desta jornada. Antes de seguir para a sede histórica, uma parada na Praia da Âncora colocou o Rio Tocantins no centro da viagem desde o primeiro momento. Água doce, horizonte aberto e a ponte ao fundo antecipam uma característica marcante: em Porto Nacional, o rio não é apenas como paisagem. Ele organiza deslocamentos, lazer, trabalho, memória e é parte importante da vida, identidade e da economia local.

Depois de Luzimangues, são cerca de 60 quilômetros até a sede de Porto Nacional. A estrada leva de uma área moldada pela expansão recente para uma das cidades históricas mais importantes do Tocantins. O município se apresenta oficialmente como a Capital da Cultura, título que não depende de um único monumento ou de uma única tradição: ele se espalha por festas, histórias que atravessam gerações, religiosidade, arquitetura, personagens populares e modos de vida ligados ao rio.

Balneário Lago Azul
Praia da Âncora, em Luzimangues, com Palmas ao fundo.
Crédito: Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior.

Quando a cultura também representa história local

Na sede dos Bonecos Gigantes de Porto Nacional, a cultura popular dá forma física a esse repertório. Criado em 2001, os espetáculos “A Caçada da Buiúna” e os “Bonecos Gigantes”, levam para as ruas personagens, ancestralidade e as memórias da cidade. Para o produtor cultural Everton dos Andes, os bonecos não funcionam apenas como elementos festivos, eles também são uma forma de preservar histórias que corriam o risco de desaparecer com as transformações do território.

“Esse espetáculo foi criado para contar a sobre a Boiúna, que é uma história típica da nossa cidade, e também para fazer um protesto social, quando da formação do lago, que desterritorializou as pessoas que viviam à margem do rio, os ribeirinhos, e com isso levou muitas histórias, muitos saberes tradicionais”, explica Everton.

A resposta do produtor cultural desloca a Boiúna do campo da curiosidade para uma camada mais profunda. A formação do lago da Usina Hidrelétrica de Lajeado mudou a paisagem e alterou a relação de comunidades inteiras com a margem do Tocantins, inclusive com comunidades que foram inundadas e tiveram de ser deslocadas, como a comunidade da Pirraça, em Porto Nacional, cujas famílias foram reassentadas em outras áreas do município após a formação do reservatório.

Nesse contexto, uma narrativa que tem origem na oralidade é uma maneira de preservar memórias e registrar aquilo que não está no mapa, como o conhecimentos sobre o rio, histórias transmitidas de geração em geração e a sensação de pertencimento a lugares que já não existem da mesma forma.

Balneário Lago Azul
Everton dos Andes e equipe entre os Bonecos Gigantes de Porto Nacional.
Crédito: Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior.

Um caminho de fé que começou no seminário

A memória de Porto Nacional também atravessa a fé católica. O Seminário São José, antigo Convento Santa Rosa de Lima, é uma das edificações protegidas no conjunto histórico da cidade e foi sede dos padres dominicanos a partir da década de 1920. Hoje, além da função religiosa, o espaço ajuda a preservar a trajetória do Padre Luso de Barros Matos, sacerdote que se tornou uma das figuras mais importantes da devoção popular local.

A visita é conduzida por guias locais, como Zulmira Cardoso, que percorre corredores, salas, objetos e registros da vida do religioso e conduz o visitante por episódios que fazem parte da memória construída em torno de Padre Luso. Entre os relatos preservados pela tradição oral, estão episódios que os devotos interpretam como sinais de santidade - inclusive histórias de que Padre Luso teria levitado durante momentos de oração. Essa memória ganhou, literalmente, um caminho pela cidade. O “Caminho da Fé” começa no Seminário e refaz pontos ligados à trajetória de Padre Luso. A caminhada é realizada tradicionalmente no dia 3 de cada mês, data associada à morte do sacerdote, em 3 de agosto de 1987, mas também pode ser feita por visitantes em outros dias.

“Todo dia 3 a gente faz esse percurso. [...] Mas nós fazemos também quando chega algum visitante, algum turista que deseja pagar uma promessa, e a gente faz esse percurso relembrando os passos de Padre Luso”, conta Zulmira durante a caminhada.

Quem faz o percurso cumpre uma tradição e amarra uma fita depois de um pedido, em um dos pontos de parada do trajeto. A caminhada termina na Igreja São Judas Tadeu, onde o corpo de Padre Luso está sepultado. A igreja se tornou um dos principais pontos de devoção ligados ao sacerdote e, desde dezembro de 2025, também está associada ao processo oficial da Igreja Católica que investiga sua vida, suas virtudes e sua fama de santidade. O processo de beatificação está em andamento e é uma das etapas necessárias para que seja declarado oficialmente como santo. Porém, mesmo sem o rito formal, a devoção ao padre que viveu por aquelas ruas e prédios no passado é algo bem presente na vida da cidade.

“Aqui vem muita multidão agradecer, pedir ao Padre Luso. Aqui, Padre Luso está enterrado. Todos fazem os seus pedidos e entregam para ele seus casos que consideram impossíveis”, diz Zulmira.

Vila dos Pescadores
Interior do Seminário São José durante visita guiada por Zulmira G. Cardoso. Crédito: Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior.
Pesca artesanal que sustenta as famílias
Caminho da Fé, percurso ligado à história de Padre Luso em Porto Nacional. Crédito: Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior.
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Igreja São Judas Tadeu, onde está sepultado Padre Luso.
Crédito: Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior.

Uma cidade tombada que continua sendo habitada

O Caminho da Fé passa por um trajeto cuja história não está isolada em um museu. O Centro Histórico de Porto Nacional foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2008. A área protegida reúne cerca de 250 edificações, além de ruas, largos e praças, e inclui construções religiosas, residências e espaços públicos que registram diferentes momentos da ocupação do antigo norte de Goiás.

No coração desse conjunto está a Catedral Nossa Senhora das Mercês. A construção atual começou em 1894 e foi concluída no início do século XX pelos dominicanos franceses. A arquitetura de inspiração românica remete a Toulouse, na França, cidade de origem da ordem religiosa responsável pela obra. O resultado é um edifício que parece estrangeiro em sua referência formal, mas profundamente local na forma como passou a fazer parte da vida de Porto Nacional.

É diante da Catedral Nossa Senhora das Mercês que a Boiúna reaparece, fechando um círculo aberto lá atrás, entre os Bonecos Gigantes. “A cobra grande é a Boiúna. Diz a história que a Boiúna tem a cabeça enterrada debaixo da catedral e a cauda se estende até o outro lado do rio. Os antigos dizem que, se um dia a Boiúna for desenterrada, a cidade de Porto Nacional inundará”, conta Everton a versão local de outras histórias de cobra grande que vivem debaixo de cidades amazônicas, o que remete à uma tradição e crença ancestral “enterrada” pela chegada das missões católicas

A relação entre diferentes culturas é uma amostra de patrimônios que dialogam: o que está registrado nas pedras e o que sobrevive na palavra. Em Porto Nacional, eles não competem entre si. A Catedral pode ser estudada pela arquitetura, pelo processo de tombamento e pela história da presença dominicana, ao mesmo tempo em que continua sendo cenário de uma história contada pela cultura e identidade local.

Vila dos Pescadores
Catedral Nossa Senhora das Mercês, no Centro Histórico de Porto Nacional. Crédito: Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior.
Pesca artesanal que sustenta as famílias
Detalhes da Catedral Nossa Senhora das Mercês, símbolo do patrimônio histórico de Porto Nacional. Crédito: Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior.

Quando o rio deixa de ser paisagem e vira destino

Se a história ocupa as ruas do centro, o Tocantins continua organizando a vida para além delas. Porto Nacional combina uma praia de acesso urbano com a Praia Porto Real, localizada em uma ilha do Rio Tocantins. Na temporada de férias, a ilha recebe o Porto Verão, com atividades de lazer, música, gastronomia e esportes. O calendário de praia é uma das formas mais visíveis de transformar o rio em destino turístico.

Mas o turismo de água doce vai além da temporada. Passeios de barco, observação de aves e pesca esportiva permitem experimentar o Tocantins de uma forma que a orla não entrega. É quando o visitante se afasta da cidade, acompanha as margens, cruza ilhas e começa a perceber que aquilo que parece apenas uma grande superfície de água também tem caminhos, pontos de pesca, áreas de descanso de aves e uma leitura própria, construída por quem vive ali.

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Lincoln Valadares e Cícero durante atividade de pesca no Rio Tocantins.
Crédito: Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior.

O problema que chega à praia

A praia urbana é a de acesso mais fácil. É justamente essa proximidade com a cidade que também faz com que problemas urbanos cheguem até ela. Moradores locais chamam a atenção para a necessidade de maior responsabilidade por parte de quem frequenta a praia.

“Hoje eu juntei, cortei meu pé aqui com esses cacos de vidro. Juntamos ali um bocado de entulho, sacola, garrafas PET, colchão, um monte de lixo jogado aqui, tanto pela areia como na margem da água. Então a gente fica triste com a situação”, relatou.

Ela própria levou sacolas para recolher parte dos resíduos e afirmou que o cuidado precisa ser dividido entre frequentadores e poder público. Mais do que o incômodo provocado pelo lixo, porém, a situação levanta uma questão sobre o próprio futuro do turismo. Um destino pode ter água limpa, paisagem bonita e acesso fácil, mas perde valor se o visitante não se sentir seguro ou confortável para permanecer. “Quem perde com isso é a cidade”, resume a moradora, pedindo maior cuidado com um dos patrimônios da cidade e preservação do meio ambiente.

Qualquer destino que tenta ampliar a visitação tem também uma responsabilidade: receber mais pessoas pode movimentar comércio e serviços, mas também aumenta a pressão sobre coleta, limpeza, fiscalização e manutenção dos espaços. Por isso, o crescimento do turismo também exige estrutura para receber quem chega e preservar o lugar que atrai os visitantes. Turismo deve ser visto como política pública, gerando renda e fazendo da preservação ambiental mais que uma ideia abstrata e sim uma condicionante para a atividade turística.

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Resíduos recolhidos na faixa de areia da praia urbana de Porto Nacional. Crédito: Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior.

Quem vive do rio precisa que o rio continue vivo

É nesse ponto que a conversa com Cícero Pereira, um dos membros da Colônia de Pescadores, ajuda a ligar preservação e economia. Pescador e guia, ele também acompanha trabalhos de pesquisa relacionados a aves, peixes e qualidade da água. O conhecimento acumulado ao longo da vida no Tocantins hoje pode ser compartilhado com visitantes em passeios, observação de fauna e pesca esportiva.

No barco, a lógica muda. O peixe deixa de ser apenas aquilo que se retira da água. Na pesca esportiva, o valor está justamente em encontrar, capturar, registrar e devolver. Para Cícero, a conta é simples. “Se pegar o peixe, matar o peixe, daqui a uns tempos não vai ter mais esse turismo. Nós vamos perder.”

A frase resume uma transformação que vários destinos de pesca vêm experimentando: o mesmo animal pode gerar valor econômico repetidas vezes quando permanece no ambiente. O raciocínio não elimina a pesca tradicional nem resolve, sozinho, os problemas ambientais do rio, mas aponta para outra possibilidade de renda para quem conhece o território e pode atuar como guia.

Durante o passeio, a pescaria divide espaço com a observação de aves e com a própria navegação. Para o visitante, é uma experiência de lazer. Para quem conduz o barco, é também trabalho especializado: reconhecer o comportamento do peixe, escolher o ponto, ler a água, saber onde uma espécie de ave costuma aparecer e voltar com segurança. É um conhecimento que dificilmente se aprende apenas por um mapa ou aplicativo.

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Observação de aves durante passeio pelo Rio Tocantins, em Porto Nacional. Crédito: Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior.

Na Ilha da Dona Ivete, o turismo vira almoço, estadia e renda

O passeio pelo Tocantins leva a outro lado do rio. Na Ilha da Dona Ivete, a experiência não termina quando o barco encosta. Ivete da Conceição Miranda recebe visitantes em um espaço com deck, mesas junto à água e área de acampamento. A dinâmica permite que uma visita de algumas horas se transforme em um fim de semana inteiro.

“Tem final de semana que está lotado. O pessoal vem na sexta ou no sábado e retorna só no domingo de tarde ou então na segunda de manhã”, conta Ivete.

A gastronomia é parte central dessa permanência. O tucunaré, peixe que aparece na conversa sobre pesca esportiva, reaparece à mesa sob outra lógica. Ivete explica que é um dos pratos mais pedidos, servido com arroz, pirão, farofa e salada. Essa dupla presença do tucunaré ajuda a mostrar que turismo não se organiza em uma única atividade. O mesmo rio pode sustentar diferentes formas de trabalho e renda: o guia que leva o visitante para pescar, o pequeno negócio que recebe famílias na ilha, a cozinha que serve peixe, o barqueiro que faz o deslocamento e outros serviços que surgem ao redor da experiência. Quanto mais tempo o visitante permanece, maior a possibilidade de a renda circular entre diferentes trabalhadores.

O que fica depois da visita

Balneário Lago Azul
Mirante às margens do Rio Tocantins reúne, em uma mesma paisagem, a cidade histórica, as áreas mais novas e as praias de Porto Nacional. Crédito: Kécia Garcia Ferreira e Manoel Júnior.

A viagem termina em um mirante de frente para o Rio Tocantins. Do alto, a cidade histórica, as áreas mais novas, as praias e o rio voltam a caber na mesma paisagem. É uma síntese adequada para um município que vive em mais de um tempo ao mesmo tempo: Luzimangues cresce praticamente encostada em Palmas; o Centro Histórico protege edifícios e ruas anteriores à criação formal do Estado do Tocantin; a devoção a Padre Luso ganha um novo capítulo; e atividades ligadas ao rio tentam transformar preservação em oportunidade econômica.

Porto Nacional não precisa escolher entre ser cidade histórica, destino religioso, praia de água doce ou território de pesca. Sua força está justamente na sobreposição dessas camadas. O desafio é fazer com que o crescimento de uma não destrua as outras.

A fala da moradora que recolhe lixo na praia e a de Cícero sobre a pesca responsável parecem tratar de problemas diferentes, mas chegam ao mesmo ponto. O turismo só se sustenta enquanto o lugar continua oferecendo aquilo que fez alguém querer conhecê-lo. Água limpa, peixe, memória, paisagem e cultura não são cenários substituíveis. São a própria matéria-prima do destino.

No Tocantins, há lugares que se visitam para ver uma paisagem. Porto Nacional é melhor compreendida quando se percebe que a paisagem também conta uma história: a do rio que criou caminhos, perdeu margens, sustentou comunidades e continua decidindo o que a cidade pode ser no futuro. Preservar o Rio Tocantins, nesse caso, não significa apenas proteger a natureza. Significa também preservar parte da memória, da renda e da própria identidade de Porto Nacional.

Que tal conhecer os outros episódios da série Destino Amazônia?