Reportagem de Ruanne Lima.
Edição de texto por Natália Mello. Revisão de texto por Carla Fischer.
Coordenação de produção por Luciene Kaxinawá.
Imagens de Rogério Lameira.
Revisão audiovisual de Anna Suav.
Edição final audiovisual de Márcio Nagano.
Este conteúdo integra a série Destino Amazônia, realizada pelo Amazônia Vox
com apoio do Sicredi
e do Sebrae.
Publicado em 29/06/2026 19:00
Na escuridão e no silêncio da madrugada deixamos a capital do Amapá rumo ao sul do estado pela BR-156, a única rodovia federal que liga Macapá ao município de Laranjal do Jari. São cerca de 270 quilômetros de percurso. Parece longe, mas na Amazônia, chegar ao destino faz parte da própria experiência.
Aqui, as distâncias nem sempre são medidas apenas pelos números do mapa. O tempo do percurso é ditado pelas condições da estrada, pelas chuvas e pelos desafios que ainda fazem parte da vida de quem se desloca pela região. A rodovia é a principal ligação terrestre do Amapá. Ao todo, são cerca de 822 quilômetros de extensão, cortando o estado de sul a norte, mas a estrada ainda não está completamente asfaltada.
Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), as obras seguem em vários trechos da rodovia, numa tentativa de resolver esse gargalo logístico que se arrasta há mais de quatro décadas. Durante o inverno amazônico, quando a chuva transforma a paisagem e também a estrada, a viagem ganha outro ritmo. É preciso seguir com calma, respeitando o tempo e tudo o que ele impõe a quem passa por ali.
No caminho, o cheiro da floresta molhada é intenso e nos faz sentir a grandiosidade da natureza, viva. O Amapá é considerado um dos estados mais preservados do país. De acordo com dados da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema/AP), as unidades de conservação, incluindo terras indígenas e quilombolas, ocupam aproximadamente 73% do território amapaense. Uma riqueza que se revela pouco a pouco pela janela do carro.
Laranjal do Jari
Depois de pouco mais de cinco horas de viagem, chegamos a Laranjal do Jari. Com cerca de 37 mil habitantes, a cidade com 38 anos de criação tem jeito de interior, mas mantém um intenso movimento urbano, especialmente pela proximidade com o distrito de Monte Dourado, localizado no município de Almeirim, no Pará. O elo firmado pelo Rio Jari ajuda a explicar essa dinâmica. Durante todo o dia, embarcações fazem a travessia entre os dois municípios, transportando moradores, trabalhadores, mercadorias e veículos.
A primeira parada foi na orla da cidade. Popularmente conhecida como "Beira" ou "Beiradão", a área foi a principal porta de entrada para quem chegava a Laranjal do Jari durante muitos anos. O local continua movimentado e vivo. Entre barcos, passageiros e vendedores, a Beira segue como um dos retratos mais tradicionais da cidade e da relação que a população tem com o rio.
Foi nesse cenário que encontramos Dierlem Santos, guia e dona da agência de turismo Vale Trip Jari que nos conduz à próxima etapa da viagem: um passeio pelo Rio Jari até a Cachoeira de Santo Antônio, um dos destinos que ajudam a revelar as belezas ainda pouco conhecidas do Amapá. Embarcamos e começamos a navegar pelas águas do Rio Jari. Decidimos aproveitar a experiência completa e incluir a vivência comunitária no roteiro. Assim, antes de seguirmos para as quedas d'água, a nossa primeira parada foi no Quilombo São José.
Resistência sobre as águas
Antes mesmo de desembarcar, já era possível sentir que a recepção seria especial, já que as crianças aguardavam a nossa chegada. Vestidas com as tradicionais saias coloridas do Marabaixo e com largos sorrisos, já se preparavam para uma apresentação. O acolhimento veio de forma muito espontânea. Um gesto simples, mas capaz de mostrar a força, a ancestralidade e a alegria que marcam a vida na comunidade.
Construído sobre pontes de madeira e cercado pelas águas do Rio Jari, o Quilombo São José chama atenção pela paisagem e pela história. Antônia Carvalho Pinto da Silva, a matriarca da família, é uma das moradoras mais antigas. Ela chegou ao quilombo ainda criança, aos dez anos, quando a família decidiu fincar raízes. Foi ali que a comunidade começou a ganhar forma, sustentada pela coleta da castanha, pela pesca e pelo cultivo da roça.
Antonia lembra que, por serem negros, ela e sua família enfrentaram preconceito e rejeição em comunidades vizinhas. Mesmo assim, permaneceram no território. Ela viu os irmãos seguirem outros caminhos, teve a própria família, criou os filhos e acompanhou a transformação da comunidade até o reconhecimento como quilombo.
Hoje, aos 64 anos, dona Antônia continua sendo uma das principais referências do local. O amor que a matriarca tem por esse pedaço de chão alagado transborda. Quando questionada sobre a possibilidade de deixar a comunidade, a resposta vem sem hesitação. “Depois que a minha mãe morreu, os irmãos se espalharam. Uns foram para Laranjal do Jari, outros para Vitória do Jari. Eu disse que não ia. Vou ficar aqui. Daqui só para o cemitério. Me deram até uma casa na cidade, mas eu não quis. Aqui eu criei meus filhos. Se eu quero laranja, vou na roça e tiro. Se quero banana, vou na roça e tiro. Então por que eu vou deixar daqui?”.
Impactos, reinvenção e o turismo comunitário
Apesar do forte vínculo com a terra, dona Antônia conta que, após o início das operações da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, os moradores perceberam mudanças que afetaram as atividades na região. Uma delas foi a produção do açaí. “Antes vivíamos do açaí. Depois surgiu a hidrelétrica e acabou com nosso açaí. Agora é mais para consumo mesmo”, afirma. Para quem vive da floresta e do rio, as mudanças não são medidas apenas por números. Elas aparecem no que deixa de ser colhido, no que deixa de ser produzido e na forma como a comunidade precisa se reinventar.
Atualmente, o quilombo abriga 106 moradores distribuídos em 30 famílias. Em 2013, a comunidade foi reconhecida pela Fundação Cultural Palmares como remanescente de quilombo, o que abriu portas para o turismo de base comunitária - uma alternativa para gerar renda e melhorar a qualidade de vida de todos, utilizando o território de forma sustentável. Apesar desse importante reconhecimento, o processo de regularização fundiária ainda não foi concluído, e a comunidade segue aguardando os trâmites necessários para a titulação definitiva do território.
Nilcélia Tavares da Conceição é pedagoga e nora da dona Antônia e conta que cada visita se transforma em uma troca rica de vivências. Os turistas conhecem a realidade quilombola, enquanto a comunidade encontra no turismo de base comunitária uma forma de ganhar recursos e manter vivas as próprias tradições. “Aqui a gente costuma dizer que é como coração de mãe, sempre cabe mais um. Muitas vezes as pessoas falam que visitam outras comunidades e não encontram uma recepção como a nossa. A gente gosta de receber, de mostrar quem somos e de compartilhar a nossa história.”
Essa movimentação deixa a comunidade muito feliz, porque é um indicativo do reconhecimento do trabalho feito pelos moradores. Para eles, é uma alegria receber pessoas de outros lugares.
“Quando recebemos os estrangeiros aqui, por exemplo, nunca imaginamos que alguém viria de tão longe para conhecer a nossa realidade. Eles gostaram tanto da comunidade que decidiram investir aqui. Isso foi muito importante para nós e mostra que a nossa cultura, a nossa história e a forma como acolhemos as pessoas fazem a diferença.”
Esse afeto pelo território transborda em cada canto e é percebido no sorriso das crianças, na forma orgulhosa como as mulheres narram suas trajetórias e no cuidado com cada detalhe preparado para os visitantes. Depois das conversas e das histórias compartilhadas, chegou a hora de seguir viagem. Voltamos para a lancha e navegamos mais alguns minutos até a comunidade Cachoeira de Santo Antônio.
As memórias na comunidade da Cachoeira
Logo na chegada, deparamo-nos com cenas que traduzem a essência da vida na floresta: crianças pescando com linha e pegando peixes com as mãos, e uma senhora lavando roupas à beira do rio, sem pressa, fumando seu cachimbo. Simpática e receptiva, ela saúda quem chega.
Quem vê a tranquilidade do lugar talvez não imagine a importância que a área teve para a formação da região. Foi a partir dali que Laranjal do Jari começou a pulsar. Durante anos, a comunidade foi o entreposto que recebia as embarcações, mercadorias e pessoas que circulavam pelo Vale do Jari. Desse movimento nasceu o antigo "Beiradão" e, mais tarde, o próprio município.
Hoje, o local abriga cerca de cem moradores distribuídos em 24 famílias. Uma comunidade pequena, mas gigante em histórias que passam pelos antigos castanhais, pela extração do látex e pela relação ancestral dos moradores com o rio.
Para a nossa equipe, a parada foi acolhedora e saborosa. O almoço já estava pronto quando desembarcamos. Na mesa do Restaurante da Maria, preparado para nos receber, tinha peixe fresco, arroz, baião, farofa, pimenta e muita conversa boa. Tudo feito com carinho pelas moradoras da comunidade.
Entre elas, Priscila Farias, que recentemente conquistou o terceiro lugar no Abrachefs 2026, um concurso promovido pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). A equipe teve o privilégio de saborear justamente a sobremesa que garantiu o prêmio: um pudim de castanha-do-pará inigualável e aprovado por todos.
Priscila também é presidente da Cooperativa Coopcachoeira, voltada ao turismo comunitário. Ela fala da importância de manter a floresta em pé e os rios longe da poluição. Para os moradores, preservar a floresta e o rio não é apenas uma questão ambiental; trata-se de uma necessidade diretamente ligada à sobrevivência das famílias. Da mata vêm a castanha, o breu, a andiroba e os espaços para o cultivo da roça. Do rio vêm o peixe e a água utilizada no dia a dia. Recursos que garantem alimento, renda e a permanência das pessoas.
“Eu costumo dizer que, se você deixa a pessoa vir desmatar a floresta, se você deixa o garimpo ilegal permanecer na sua região, o rio fica sujo e você não consegue mais pescar, não consegue ter o peixe. Com isso, a gente perde a floresta e perde também a nossa principal fonte de renda. Nós, das comunidades tradicionais, ribeirinhas e quilombolas, dependemos desses recursos para tirar o sustento da família e até o nosso próprio alimento", afirma Priscila Farias.
O lugar guarda também uma curiosidade que pouca gente imagina encontrar no meio da Amazônia. Do outro lado da margem do Rio Jari, quase em frente à comunidade, existe um antigo cemitério que acabou ganhando repercussão internacional. Foi ali que, durante uma expedição alemã realizada na década de 1930 pelo Vale do Jari, um dos integrantes morreu vítima de malária e foi sepultado na região. Anos depois, os restos mortais foram levados pela família, mas uma grande cruz, com a suástica nazista, continua no local e até hoje desperta a curiosidade de quem visita a comunidade.
Mas, seguindo viagem, ainda do quintal da comunidade, já era possível ver uma das quedas da Cachoeira de Santo Antônio e ouvir a força da água. O barulho acompanha a gente o tempo todo, como um convite para chegar mais perto. Nos despedimos da comunidade, voltamos para a embarcação e seguimos em direção à cachoeira. Antes do dia terminar a equipe ainda teria uma surpresa que a Coopcachoeira preparou.
A força de Santo Antônio: contemplação e pertencimento
Ver a Cachoeira de Santo Antônio de perto é difícil de explicar. O impacto visual impressiona logo de cara, mas, depois que paramos por alguns minutos para observar, percebemos que a beleza vai muito além da queda d’água. São as pedras cobertas pela vegetação, os diferentes tons de verde, a força mística do rio, o vento úmido no rosto. Tudo parece respirar junto. É aquele tipo de lugar que faz a gente diminuir o ritmo e simplesmente contemplar.
Ficamos alguns minutos bem em frente à cachoeira, registrando imagens e ouvindo as explicações das guias da comunidade. Segundo elas, o melhor período para visitar o local é durante o inverno amazônico, quando as chuvas aumentam o volume do rio e deixam a cachoeira ainda mais bonita e imponente.
Como estávamos acompanhados por uma equipe do Corpo de Bombeiros, tivemos acesso a uma trilha diferenciada, que ainda não está totalmente aberta ao público geral. O percurso exige apoio especializado, mas recompensa qualquer esforço. Após a subida, a vista revela um ângulo ainda mais especial da cachoeira e de seus cerca de 30 metros de queda livre.
Nesse local, o Governo do Estado do Amapá e a Prefeitura de Laranjal do Jari estão construindo um mirante de observação para os turistas. A estrutura principal já foi montada, porém as vias de acesso ainda precisam ser aprimoradas para garantir a total segurança dos visitantes. A data oficial de inauguração ainda não foi divulgada.
Foi lá em cima que conversamos com Hortênsia Araújo. Paraense, ela se mudou há quatro meses para Laranjal do Jari para atuar como professora de história no Instituto Federal do Amapá (Ifap), Campus do município. Ela e o namorado, Edgar Cabral, que também é professor de história, estavam explorando as belezas da região pela primeira vez. Emocionada com o cenário, Hortênsia trouxe uma reflexão profunda.
“Eu acho que é preciso ter um olhar de dentro para fora. Porque, quando se tem esse olhar de fora, muitas vezes a ideia que se passa é de que aqui a gente precisa de um desenvolvimento econômico, quando, na verdade, esse desenvolvimento pode sair daqui e se estender. É preciso que as pessoas valorizem a sua própria história, a sua própria comunidade, para que outros possam também aproveitar o que a gente tem aqui.”
Para Edgar, é difícil descrever em palavras a emoção de conhecer aquele lugar, as comunidades e os costumes de um povo que nasceu na floresta e quer permanecer e viver dela. "Muitas vezes a gente se preocupa em conhecer outros países, outras regiões do Brasil, e acaba esquecendo de olhar para dentro, acaba esquecendo de olhar para o que a gente tem aqui tão pertinho da gente”, destaca.
O historiador também chama atenção para a importância de manter o turismo de base comunitária na região. "Esse movimento é fundamental para a gente entender quem é o amazônida, quem somos nós. Por isso é importante também escutar quem está aqui dentro, quem mora aqui na beira do rio. Essas populações tradicionais têm saberes que fazem muita diferença para nós, que estamos a poucas horas de distância, mas conhecemos muito pouco. É preciso que essas comunidades, tantas vezes invisibilizadas, sejam finalmente escutadas”, afirma
Caminhos abertos por mãos femininas: o futuro do Jari
Nos preparamos para voltar. Embarcamos novamente e a guia Dierlem Santos avisou que havia mais uma parada, preparada pelas mulheres da Coopcachoeira - desta vez, uma surpresa. Após alguns minutos de navegação, chegamos ao ponto onde as cooperadas já nos aguardavam. É uma nova trilha, aberta por elas, para acessar um outro ponto de contemplação da Cachoeira de Santo Antônio. Como o espaço ainda não possui estrutura turística, o apoio das guias é indispensável para concluir o trajeto.
Batizada de Trilha do Paranã, termo indígena que significa “grande rio" , o caminho é um verdadeiro monumento à força local: foram cinco mulheres trabalhando duro durante uma semana na mata para retirar a vegetação densa e abrir o acesso.
Após alguns minutos caminhando pela trilha, que em poucos dias a própria floresta já tentava cobrir novamente, alcançamos o objetivo. Ali a sensação é única: vale a pena todo o esforço. A calmaria da mata é invadida pelo estrondo imponente da queda d’água, revelando mais uma vista privilegiada. E a cooperativa já projeta o futuro: o próximo sonho é construir um restaurante rústico no fim da trilha. A ideia é oferecer aos visitantes um espaço para contemplar a paisagem, experimentar a culinária local e conhecer de perto o modo de vida de quem vive às margens do Rio Jari.
Dierlem Santos, da Agência Vale Trip Jari, ressalta a responsabilidade de fortalecer o turismo de base comunitária, amplificando a voz e dando autonomia para as comunidades. “Antes, a gente contava muito com a indústria da Jari Celulose. Como ela não está mais operando, enfrentamos uma queda na economia de Laranjal do Jari. Então, o turismo surge como uma alternativa real de desenvolvimento econômico. Conhecemos vários exemplos fora do estado de que o turismo gera renda, e nós enxergamos as comunidades como o nosso principal atrativo”, afirma.
O que torna o passeio tão especial não é apenas a força da cachoeira ou a beleza da natureza. É a forma como a comunidade aprendeu a transformar o amor pelo território em acolhimento. Quem chega encontra água, floresta e aventura; mas leva embora algo ainda maior: a certeza de que a Amazônia pulsa viva nas histórias, na ancestralidade e nas mãos de quem chama esse lugar de lar.
A viagem nos revela também que o turismo é um novo caminho para gerar renda, preservar tradições e valorizar quem vive na Amazônia. Uma visão compartilhada pelos parceiros que apoiam o projeto Destino Amazônia. Gliverson Xavier, gerente regional de desenvolvimento do Sicredi, celebra esse fortalecimento regional.
"Nós, do Sicredi, estamos apoiando muito a cadeia produtiva e a cadeia do ecoturismo e do turismo aqui na região. Confiamos muito nos empreendedores e associados desse segmento. Com o nosso propósito e nossa linha de produtos e serviços, tenho certeza de que colhemos excelentes frutos desse grande projeto”.