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Ainda bem que o Acre existe: conheça a Serra do Divisor, guardiã do último pôr do sol do Brasil

Roteiro inclui vivência com comunidade e banhos em cachoeiras naturais convidativas, onde o visitante tem verdadeira imersão na floresta e convive com espécies únicas da fauna e flora amazônica.

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Reportagem de Daniel Nardin.
Revisão de texto por Carla Fischer.
Coordenação de produção por Luciene Kaxinawá.
Imagens de Thiago William (TW Filmes).
Revisão audiovisual por Anna Suav.
Este conteúdo integra a série Destino Amazônia, realizada pelo Amazônia Vox com apoio do Sicredi e do Sebrae.

Publicado em 28/05/2026 11:00

Enquanto a maior parte das cidades do país já acendeu suas luzes artificiais, a Serra do Moa cumpre sua missão diária de guardar o último brilho de sol no Brasil. No horizonte oeste, a esfera alaranjada escorre lentamente, emoldurada pelas silhuetas de montanhas distantes, já em solo peruano. As nuvens em tons de rosa e amarelo aos poucos dão lugar ao céu estrelado, que anuncia a chegada da noite, que enfim encobre o Parque Nacional da Serra do Divisor.

No horário do Acre, mais precisamente no município de Mâncio Lima, onde fica a comunidade Pé da Serra, são 17h45. No horário de Brasília, 19h45. O adiantado da hora na maior porção do país já justificaria o título de abrigar o último pôr do sol do Brasil, mas é a posição geográfica - a divisa com o Peru - que reforça essa característica exclusiva.

O nome ‘divisor’ também pode ser relacionado com a divisão de águas das bacias hidrográficas do Médio Vale do Rio Ucayali, no Peru, e do Alto Vale do Rio Juruá, no Acre. Também é uma extensa área que conecta a floresta amazônica dos dois países e a Cordilheira dos Andes.

Por do sol na Serra do Divisor
Os morros da Serra do Divisor guardam o sol diariamente. Ao fundo, silhuetas de montanhas já no lado peruano da floresta amazônica. Foto: Thiago William

Por essas características - que também mantêm atividades humanas mais intensas à certa distância - a Serra do Divisor abriga ainda outro privilégio: é uma região considerada das mais biodiversas do mundo, com espécies raras e endêmicas (aquelas encontradas somente em determinadas áreas), cachoeiras que convidam para o banho e trilhas que lembram aos visitantes que o caminho é, muitas vezes, a melhor parte do destino. 

A experiência de viver um pedacinho do muito que o Acre oferece deixa ainda mais esvaziada de sentido a “piada” - já tão sem graça quanto carregada de preconceito e ignorância - sobre a existência desse lugar. O que passa a ter lógica é a renovação da frase, bem mais adequada: ainda bem que o Acre existe. 

História, gastronomia e rio Croa valem uma prévia por Cruzeiro do Sul

O caminho até a Serra do Divisor tem algumas possibilidades, que variam conforme o bolso e o tempo do viajante. Para quem vive na região, o principal ponto de partida é o Porto da Alameda das Águas, no município de Mâncio Lima, onde os barqueiros atracam para iniciar o trajeto de rabeta - embarcação de pequeno porte a motor - por cerca de oito horas rio Moa acima. 

Distante dali cerca de 40 minutos de carro (35 quilômetros) está o município de Cruzeiro do Sul, que possui aeroporto com voos regulares apenas para Rio Branco e Brasília. 

Para quem é de fora do Estado, a opção mais utilizada e conhecida é iniciar o percurso desde a capital Rio Branco, mais à leste do Estado. Aliás, o desenho do mapa do Acre lembra “um pouso de borboleta”, como escreveu Noberto Tene Kaxinawá, no Atlas Geográfico Indígena do Acre. Ou… um par de óculos. Parece até um recado aos brasileiros que insistem em não enxergar essa parte do país, incluindo a iniciativa pública e a privada, como as companhias aéreas, pelos poucos - e frequentemente caros - voos. 

Porto da Alameda das Águas
Porto da Alameda das Águas, onde inicia o trajeto até a Serra do Divisor. Foto: Thiago William
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Mapa do Parque Nacional da Serra do Divisor - PNSD

Além da linha aérea até Cruzeiro do Sul, o aeroporto da capital acreana dispõe hoje de ligações aéreas diretas apenas com Brasília, São Paulo, Belo Horizonte e Manaus, exigindo dos amazônidas de outros Estados a insólita viagem de cruzar o país para visitar um território irmão e vizinho. 

A outra opção de ligação entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul é via terrestre, pela rodovia BR-364. São 635 quilômetros percorridos em cerca de 12 horas, por conta das condições da pista, que exige baixa velocidade. 

Seja qual for o caminho até chegar em Cruzeiro do Sul, a cidade tem atrações que valem esticar a visita. Orgulhosa de sua história e ostentando o título de segunda maior cidade do Acre, com população de quase 100 mil habitantes, o município possui dezenas de balneários espalhados nas proximidades do centro urbano, banhado pelo rio Juruá. 

Porto da Alameda das Águas
Pôr do Sol no Rio Juruá, que corta Cruzeiro do Sul. Ponte da União, com a bandeira do Acre, virou um dos pontos marcantes da cidade. Foto: Thiago William

A gastronomia é um dos pontos altos, com várias opções de restaurantes, lanchonetes e sorveterias (não deixe de conhecer a Miletto e provar vários sabores regionais, entre eles o de tapioca da Tia Cândida, com coco). 

Também é famosa a farinha de Cruzeiro do Sul - a melhor do mundo, segundo os acreanos - encontrada com facilidade em diversos pontos de venda, mas especialmente no mercado de produtos regionais, no centro histórico. 

Pertinho dali fica a imponente Catedral de Nossa Senhora da Glória, com 50 metros de altura até a torre. Ali, inclusive, é o cenário da procissão em homenagem à padroeira do município, que reúne milhares de fiéis todos os anos, em agosto. 

Mercado de Cruzeiro do Sul
No mercado, pequenas lojas e boxes vendem de tudo um pouco, com destaque para a farinha de Cruzeiro do Sul, que vem em diferentes tipos e gostos. Foto: Thiago William
Centro de Cruzeiro do Sul
Centro de Cruzeiro do Sul, com a Catedral de Nossa Senhora da Glória com seus tijolos marrons e a Ponte da União, que cruza o rio Juruá. Foto: Thiago William

De vários pontos da cidade é possível avistar a Ponte da União, conhecida por ser a única do país construída para suportar terremotos. A estrutura tem 550 metros de comprimento e possui uma única pilastra central, com 56 metros de altura. A adoção de sistema preventivo a abalos sísmicos foi definida por conta da cidade estar situada na região com maior intensidade de tremores do Brasil.

Museu de Cruzeiro do Sul
O Museu de Cruzeiro do Sul abriga também um teatro e um memorial e foi recentemente revitalizado. Foto: Daniel Nardin

Recentemente, em março de 2026, foi concluída a revitalização de um prédio histórico que já foi utilizado como sede da prefeitura e fábricas. Hoje, o espaço abriga o Museu de Cruzeiro do Sul, o Memorial José Augusto (em homenagem ao filho da cidade que foi o primeiro governador do Acre eleito por voto direto, em 1962) e o Teatro José de Alencar.

Mais do que a história da cidade em si, o museu apresenta acervo que aborda achados arqueológicos, um pouco dos povos indígenas que habitam a região e a cultura e tradição local. “Mais do que contar o passado, este é um espaço que também vai abrigar manifestações culturais e promover educação e valorizar a identidade da nossa gente”, afirma Williane Pinheiro, uma das guias do Museu. 

No alto da cidade, cheia de relevos, está também uma das primeiras construções do Acre que resiste ao tempo e que abrigou a sede do judiciário da cidade. Atualmente, possui um museu com imagens, objetos e mobiliário do começo do século passado.

Distante cerca de 20 quilômetros do centro urbano, quem visita Cruzeiro do Sul - e tiver tempo - pode incluir no roteiro uma passagem pelo rio Croa, que também possui atividades de turismo de base comunitária. 

No ponto alto do verão amazônico, entre os meses de julho e agosto, a menor frequência de chuvas deixa o nível do rio mais baixo e com correnteza fraca, num fenômeno natural recente, com mudanças do curso do rio Juruá, que abastecia parte do Croa. 

Isso favoreceu um espetáculo natural: as águas calmas e escuras do rio Croa são tomadas por um 'tapete' verde claro na superfície por longos trechos, formado por inúmeras plantas aquáticas chamadas localmente de 'pasta', mas também conhecidas como alface-d'água (Pistia stratiotes). Aliás, melhor: o rio Croa e suas comunidades geram um roteiro por si só, sendo mais um dos muitos destinos que valem conhecer por todo o Acre.

Tapete verde do rio Croa
O tapete verde do rio Croa, que vale a visita e passeio. Foto: Pedro Devani - Secom Acre

Pelas curvas do rio Moa, o caminho é parte do destino

Enquanto os passageiros-turistas se acomodam nos bancos de madeira com uma fina camada acolchoada, Márcio Rosa Sombra carrega a parte traseira da rabeta. Sacos de arroz, feijão, açúcar e outros produtos que comprou na cidade e revende em sua casa na comunidade Pé da Serra, onde mora com a esposa e os filhos. Inicialmente calado, aos poucos ele abre o sorriso e as histórias e, com um humor fino e falando baixo, faz rir sem forçar. 

Sorriso leve e as histórias do barqueiro Marcio Rosa
O sorriso leve e as histórias do barqueiro Marcio Rosa, o ‘Mathio Bila’. Foto: Thiago William

Aos 44 anos, é barqueiro há 22, sempre com a mesma rabeta que tem seu nome pintado. “Esse barco e esse rio é tudo pra mim. Com ele e com o turismo consegui dar uma vida melhor pra minha família”, comenta. “Eu não gosto do que faço, eu amo”, diz. Antes dessa atividade, ele trabalhava com roçado e agricultura para subsistência. Uma vez por mês descia o rio Moa para a cidade, para vender o que sobrava e comprar o que faltasse. Hoje, com o turismo, faz cerca de uma viagem por semana ou até mais, dependendo da demanda. 

Antes de iniciar a jornada rio acima até a comunidade Pé da Serra, base dos turistas que visitam o Parque Nacional da Serra do Divisor, ele sugere que os passageiros fiquem atentos aos animais e às árvores pelo caminho. Brinca dizendo que não trouxe sua antena com internet justamente para as pessoas saírem das telas digitais e observarem melhor as telas pintadas pela natureza ao longo do caminho.

A viagem, para quem pensa só no destino, pode ser considerada cansativa pelas cerca de oito horas de travessia entre as (muitas) curvas iniciais do rio Japiim e depois do rio Moa, que exige uma baixa velocidade e destreza do condutor. Porém, se o caminho é parte do destino, o passeio já começou logo no embarque, com as águas espelhadas e calmas do porto da Alameda das Águas e o vai e vem de ribeirinhos que carregam suas embarcações e seguem novos rumos.

Observar e ouvir a floresta e seus povos é a dica do historiador e arqueólogo Marcos Vinícius Neves. “Se você navegar e ficar preso a só olhar as margens do rio, vai ser uma viagem monótona. Mas, na medida que você se dispõe e se abre, para aprender e para beber dessa fonte, que é o ser acreano, essa viagem se torna muito mais rica e enriquecedora para quem aqui vem”, afirma.

Mercado de Cruzeiro do Sul
Nas ‘esquinas’ do rio Moa, as árvores formam túneis que abraçam as embarcações. Foto: Thiago William
Centro de Cruzeiro do Sul
A ‘escadinha’ de crianças e adolescentes pescando. Pelo caminho, biodiversidade e comunidade que acena e cumprimenta a cada curva. Foto: Daniel Nardin

Durante o percurso, a embarcação passa por trechos mais abertos, apresentando gigantes samaúmas acima das demais árvores. O conhecimento de Márcio Rosa inclui passagens por furos estreitos, onde os galhos da mata dão leves afagos na embarcação. 

No meio do caminho, é possível agendar uma parada para o almoço, com pratos escolhidos previamente com os organizadores do roteiro. Entre as opções está a casa de dona Lucileide, na comunidade Meia Dúzia, que acaba funcionando como um ponto de venda de mantimentos para os moradores e restaurante para os turistas. Ao chegar, a mesa já está servida, com opções entre galinha caipira, peixe assado na folha de bananeira ou mesmo um bife de carne bovina, sempre acompanhados de arroz, feijão, macarrão, farinha e macaxeira cozida. 

Barriga cheia, cochilo preparado, vale observar a destreza de Márcio Rosa ao conduzir a embarcação. De tempos em tempos, a barra de ferro que define a direção da rabeta é trocada das suas mãos pelas pernas e pés. “A gente tem que fazer força para as curvas mais fechadas. E é muito tempo, dói a coluna se só ficar sentado. Então a gente faz assim, mas eu faço melhor que todos os outros barqueiros”, brinca.

Márcio é cumprimentado ao longo do rio por dezenas de moradores e outros barqueiros, que conhece desde a infância. “Fala, Mathio Bila!”, grita um deles. A grafia com th foi definida por Marcio, que também não sabe explicar de onde surgiu o apelido, mas lembra que foi uma brincadeira que virou contra ele mesmo. “Foi num jogo de futebol e eu chamava quem jogava mal assim, para tirar graça. Nem sei de onde tirei, inventei na hora. Mas, não pegou neles, ficou pra mim. Não tem jeito, o feitiço virou contra o feiticeiro”, comenta sorrindo. 

Enquanto Mathio Bila está concentrado nas curvas e nas águas, para evitar bancos de areia ou troncos de madeira, o condutor ambiental e guia Izaías Gomes, não larga os binóculos e o celular, sempre com um fone de ouvido. Assim que nota algo nos céus, mira a visão, escuta um áudio no celular e faz anotações. 

Ao chegar na comunidade Pé da Serra, na Pousada do Miro, ele comenta com ar de satisfação. “Só agora na travessia registrei mais de 40 espécies diferentes”, exclama sorrindo e mostrando a lista que inclui Anu-Preto, Urubu Rei, diferentes espécies de gaviões e outras aves. 

Destreza de Márcio Rosa na condução
Marcio Rosa conhece cada curva do rio e reveza a condução entre os braços e as pernas, para aliviar o esforço de 8 horas de travessia. Foto: Daniel Nardin

Na floresta, olhos e ouvidos atentos para não deixar passar os detalhes

Izaías Gomes, condutor ambiental
Izaías Gomes, condutor ambiental. Reencontrou no turismo a paixão pela biodiversidade onde cresceu. Foto: Thiago William

Aos 22 anos, Izaías Gomes encontrou no trabalho de condutor ambiental e guia uma vocação que não imaginava. A atividade iniciou após concluir um curso oferecido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) de observação de aves, formando novos moradores para receber turistas de uma prática que tem adeptos no mundo todo. 

“Eu cresci aqui na comunidade, mas não me interessava muito com o turismo e mudei pra cidade (Mâncio Lima) para fazer a faculdade. Fui fazer o curso (de observação) sem muito interesse, mas acabei gostando pois é algo que conheço desde criança e gosto, que é saber mais das espécies e dos pássaros, do lugar que vivo e divido com eles, os animais e as plantas”, afirma. Prestes a concluir Matemática, ele chegou a trancar o curso de Biologia, mas pretende retomar assim que terminar a primeira graduação.

A partir de 2024, a coordenação do ICMBio no Estado passou a oferecer cursos deste tipo, qualificando ainda mais a condução da experiência dos visitantes, para atrair um público ainda mais nichado e específico, gerando renda aos próprios moradores, sem precisar de guias de outros centros. 

“A Serra do Divisor já foi eleita por pesquisadores e está entre os melhores destinos de observação de aves do Brasil. Lá você encontra espécies que só tem ali. Nós, do ICMBio, vemos como a melhor opção para o turismo no parque, tanto para a preservação como para a própria comunidade”, destaca Laurence Gilman, analista ambiental do ICMBio.

Entre os alunos de destaque desses cursos está justamente Izaías, que é geralmente um dos primeiros a ser requisitado por grupos de observadores. Ele tem ficado ainda mais conhecido através de plataformas digitais onde os adeptos da prática registram as aves e criam rankings de observadores. 

Mercado de Cruzeiro do Sul
A distância dos centros urbanos permite que a noite na Serra do Divisor tenha um céu com excelente visualização das estrelas e planetas. Foto: Thiago William
Centro de Cruzeiro do Sul
Com visão e audição atentas, Izaías Gomes identifica espécies e as apresenta aos visitantes durante as trilhas e passeios. Foto: Daniel Nardin

“Tenho uma vantagem pois eu não viajo para observar, vivo e trabalho com isso. Então todos os dias praticamente eu atualizo com alguma espécie lá”, diz, interrompendo a fala para aguçar o ouvido e levantar novamente o binóculo.

Com o aplicativo no celular, ele compara o canto do pássaro que acredita ter identificado e a imagem, para então fazer o registro. Também sempre pendurada junto do binóculo está uma pequena caixa de som portátil, que usa para emitir sons gravados e, assim, atrair as espécies. “Isso ajuda muito e nas trilhas vocês vão poder ver de perto espécies que só temos aqui”, diz. 

De acordo com o ICMBio, são mais de 500 aves nesta região, entre as mais de 1,2 mil espécies de fauna registradas. Entre as aves, algumas delas são endêmicas, como a  Choca do Acre batizada cientificamente como Thamnophilus divisorius, em homenagem ao local onde foi encontrada.

Outra espécie descoberta recentemente é encontrada somente ali, o que evidencia o potencial de aves ainda não catalogadas pela ciência. Em 2025, a  Surunina da Serra (Tinamus resonans) foi registrada e trouxe ainda mais repercussão, atraindo novos visitantes que querem ver de perto essa ave.

A rica fauna é acompanhada pela alta diversidade da flora. De acordo com o Catálogo de Plantas das Unidades de Conservação do Brasil, o parque possui 1.162 espécies de plantas  conhecidas até o momento. 

Mercado de Cruzeiro do Sul
A Choca do Acre, em registro do pesquisador Ricardo Plácido, que identificou a espécie. 
Centro de Cruzeiro do Sul
A Surunina da Serra, espécie só encontrada na região da Serra do Divisor. Foto: Luís Moraes.

“A Serra do Divisor é um centro da biodiversidade da Amazônia e do planeta. É uma região rica em termos de espécies e ambientes”, reforça o biólogo Luiz Henrique Medeiros Borges, coordenador de projetos da organização SOS Amazônia. A iniciativa atua na região desde a criação da unidade, em 1989 e mantém atividades em apoio aos moradores das comunidades e diálogo com pesquisadores. “Esse turismo de base comunitária e a observação de aves, o birdwatching, é uma atividade que atrai muita gente de outros centros e de diferentes países, que vêm só para observar essas espécies”, afirma Luiz Henrique. 

Antes de iniciar as trilhas e conhecer as belezas da Serra, é importante compreender que o roteiro tem ainda mais valor e riqueza por unir duas palavras: turismo e comunidade. E, nesse sentido, o ensinamento do modo de vida e o respeito ao tempo da floresta são outros aprendizados que o chão e as águas da Serra do Moa deixam para os visitantes.

Izaías Gomes, condutor ambiental
Os mil tons de verde, o azul do céu e o brilho nas plantas e nas águas provocadas pelo sol criam um cenário de rara beleza por todos os lados da Serra do Divisor. Foto: Thiago William

Comunidade Pé da Serra: quando o turismo ajuda a preservar

Após orientar sobre como amarrar novamente o mosquiteiro do quarto que um hóspede  - este que vos escreve - conseguiu a proeza de derrubar do teto do chalé, Agemiro Magalhães, o Miro, checa se a quantidade de comida é suficiente para a janta dos 24 hóspedes que começam a retornar das trilhas e cachoeiras. A Pousada do Miro é uma das três localizadas na comunidade Pé da Serra, às margens do rio Moa. 

Para agilizar na cozinha, Miro ajuda no corte de macaxeira que vai para a panela. Interrompe a tarefa e corre alguns metros até o gramado em frente ao refeitório para apanhar o arisco Ravi, seu filho mais novo, de 3 anos, que mais uma vez fugiu do cercado da varanda de sua casa. Com o menino no colo, acena e sorri, lembrando do compromisso de dar uma pausa para gravar a entrevista.

Mercado de Cruzeiro do Sul
Morador e dono de pousada, Miro ajuda na manutenção, na cozinha e conta histórias da região para os visitantes. Foto: Daniel Nardin
Centro de Cruzeiro do Sul
Eva é moradora e dona da pousada Caminho das Cachoeiras, mas dá uma força na cozinha de Miro para atender os visitantes. Foto: Thiago William

“Vou já aí contigo para falarmos. Deixa só eu ver se a Eva pode falar logo depois de mim, porque vocês vão entrevistar ela também, né?", pergunta Miro, lembrando do pedido para que a reportagem não deixe de citar as outras duas pousadas da comunidade. 

Eva Maria da Silva é sua vizinha e dona da pousada Caminho das Cachoeiras. Volta e meia, dá uma força na cozinha de Miro quando a demanda aperta. Pela lógica do mercado, da correria de todo dia comum nas cidades, a relação entre eles seria de competição. Mas, pela lógica da comunidade e da floresta, em que tudo está conectado e se relaciona, o que dá sentido é a colaboração e o coletivo, jamais o individual.

Isso ajuda a explicar o pedido de Miro, quase um pré-requisito para seu depoimento nesta reportagem. São gestos como esse que ajudam a compreender melhor o fundamento da atividade que se convencionou chamar de turismo de base comunitária.

“Antes daqui ser pousada para receber os outros, é nossa casa e somos vizinhos. Nos conhecemos desde sempre, como comunidade. Então, o turismo para a gente vale a pena se fizer sentido para todo mundo e puder melhorar as coisas para todo mundo que vive aqui", afirma Miro. 

Eva, que também é sogra de Miro e avó de Ravi, comemora o movimento. “A gente fica feliz quando vê assim, cheio de gente, porque gera trabalho pra todo mundo do mesmo jeito, com uma venda, um apoio de serviço. Não importa se é aqui, lá na minha ou aqui na frente", diz, apontando para a Pousada Canindé, que completa o trio de hospedagens que recebe os turistas.

Izaías Gomes, condutor ambiental
Luiz Borges, da SOS Amazônia. A ONG atuou na defesa da criação do parque e ainda trabalha junto com comunidades que moram na região. Foto: Thiago William

A atividade de turismo evitou que o natural crescimento populacional da comunidade pressionasse a floresta, ainda que em pequena escala, abrindo áreas com queima para roçado e plantações, o que não seria permitido por estar numa área de conservação. 

“O turismo ecológico e de base comunitária ajuda a preservar. Se o comunitário tem uma renda que vem do turismo, porque ele vai desmatar mais? Recebendo as pessoas, levando para tomar um banho de cachoeira e principalmente levando para observar aves”, reforça Luiz Borges, da SOS Amazônia.

Atualmente, cerca de 35 famílias vivem na comunidade Pé da Serra e o turismo é a principal fonte de renda local. Ao todo, de acordo com o último levantamento feito pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), são 470 famílias vivendo nos quase 840 mil hectares - o equivalente a 840 mil campos de futebol - do Parque Nacional da Serra do Divisor, que foi criado por decreto em 1989.

Desde 2007, o parque tem a gestão feita pelo ICMBio, que é responsável por todas as Unidades de Conservação federais no país. “É uma área protegida, com regras específicas, tem um regimento de normas específicas para o território. É um local com uma grande beleza cênica, onde é incentivada a visitação para o turismo ecológico, turismo de natureza”, detalha Laurence Gilman, do ICMBio. 

Entre os moradores do parque, que já residiam na área antes da criação, estão povos ribeirinhos e povos indígenas, como os Nawa. Em fevereiro deste ano, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) reconheceu um relatório que identifica e delimita a área ocupada pelos Nawa, sendo um dos passos para possível demarcação como Terra Indígena. “Agora eles estão lutando pela homologação. Já tem todos os estudos e possivelmente essa porção do Parque deve ser separada e se transformar em Terra Indígena num futuro próximo”, explica Gilman. 

Na parte norte do Parque fica a Terra Indígena Nukini. “Essa TI é vizinha e alguns indígenas acabaram morando no território do Parque também. Mas, no geral, são famílias e comunidades que já estavam antes da criação e que nós acompanhamos, porque é um Parque Nacional e unidade de conservação. Mas eles possuem modos de vida tradicionais, sem maiores impactos”, reforça Gilman. 

De acordo com dados do ICMBio, em 2025 foram registrados 3.157 visitantes no Parque Nacional da Serra do Divisor, número pouco maior que o registrado em 2024, de 2.995. Em 2018, último registro no sistema do ICMBio, foram 756 visitantes, o que confirma o aumento expressivo da procura pelo local.

Vista a partir do rio Moa da Pousada do Miro
Vista a partir do rio Moa da Pousada do Miro. Mais adiante fica a Pousada Canindé e pouco antes a pousada Caminho das Cachoeiras. Foto: Thiago William
Laurence Gilman
Laurence Gilman, analista ambiental do ICMBio, que faz a gestão da área do Parque Nacional da Serra do Divisor. Foto: Thiago William

Visitantes vão do turismo científico à busca por conexão com a floresta

Morador e dono da primeira pousada, Miro conhece bem o quanto o perfil de visitantes foi sendo cada vez mais diversificado. A mudança também é notada por quem acompanha os pedidos de entrada, feitos junto à coordenação local do ICMBio.

O analista ambiental do ICMBio Laurence Gilman lembra que, inicialmente, a Serra do Divisor era procurada apenas por pesquisadores de diversas partes do mundo, mas agora tem atraído perfil diversificado. “A gente incentiva isso, principalmente nos parques nacionais, que tem uma alta beleza cênica e isso é explorado através da visitação das pessoas que buscam aproveitar, mas de uma forma educativa, de conexão com a natureza e conexão espiritual. São muitos os benefícios para quem visita. Traz mais paz, diminui o estresse”, comenta Gilman.

Unir a imersão na floresta com novos aprendizados foi o objetivo de um grupo de 18 mulheres de diferentes regiões do país que decidiu passar cinco dias na Serra do Divisor. Hospedadas na Pousada do Miro, dividiram a agenda entre trilhas, cachoeiras e, principalmente, diálogos que integram uma vivência  de terapia floral, promovido pela iniciativa dos “Sistema Florais da Amazônia” que foi co-criado pelas sintonizadoras Maria Alice Campos Freire e Isabel Facchini Barsé.

Uma das idealizadoras, a terapeuta Jullia FF Medeiros, explica que as terapeutas que já atuam nessa atividade tem uma oportunidade única de aprender mais em campo, diretamente de onde vem a base desse tipo de terapia com essências da floresta amazônica. “Nós escolhemos aqui por ser um lugar tão especial, um santuário da natureza, das águas cristalinas, dessa força da floresta. O campo de consciência da Amazônia para a gente representa muito. E aqui é um lugar que tem essa força muito genuína. Estamos estudando, sentindo, observando e conhecendo. Nossa intenção é também muito de se conhecer e se alinhar com os princípios da natureza”, explica.  

Grupo de visitantes fazem rodas de conversa
À sombra da árvore e com o rio Moa ao fundo, grupos de visitantes fazem rodas de conversa durante os passeios. Foto: Daniel Nardin
Jullia FF Medeiros, terapeuta floral
Terapeuta floral, Jullia FF Medeiros facilita aprendizados, pesquisas e reflexões durante imersão de grupos nas áreas da floresta da Serra do Divisor. Foto: Thiago William

Para ela, o contato com a comunidade também ajuda no aprendizado. “A gente pode perceber na dinâmica da comunidade esse princípio de se fortalecer junto e aprender a conservar a riqueza natural, aqui que é um Parque Nacional e tem por princípio a conservação. Então, podemos contribuir para que o povo  local gere mais abundância, continuando esse trabalho de conciliar sua subsistência com a conservação da natureza”, afirma.

Atento aos diferentes perfis de turistas e visitantes, o condutor Izaías Gomes compreende que o principal valor da região está justamente em deixar como tudo está hoje. “São os atrativos naturais que chamam as pessoas até aqui. A gente precisa da floresta, dos animais, das cachoeiras para que quem venha, indique a outras pessoas e tenha desejo de voltar. Por isso temos que preservar, para manter como está. A beleza daqui é justamente a pureza da Amazônia que temos, ela é bela na simplicidade que tem”, resume Izaías Gomes.

É justamente a biodiversidade, em especial os animais, que atraiu João Paulo Krajewski, biólogo e documentarista com cerca de 20 anos de experiência e um passaporte carimbado em mais de 70 países. Pelas trilhas da serra, esteve sempre com a esposa, a também bióloga e parceira de trabalho, Roberta Bonaldo.

O casal passou dias de observação e registro de imagens para levantamento de potencial novo trabalho de documentários sobre a natureza. Eles estavam acompanhados do biólogo e condutor ambiental Rafael Almeida, acreano que mantém um perfil no Instagram para os registros que faz durante as viagens (@biologia_acre).

João Paulo Krajewski, documentarista
Documentarista experiente, João Paulo Krajewski defende turismo com cuidados para manter a preservação. Foto: Thiago William

O foco do trio era o registro de animais, especialmente primatas. Por horas, caminham pela mata num outro ritmo, mais lento e silencioso. Experiente em retratar a natureza por diferentes cantos do mundo, João Paulo afirma que a Serra do Divisor superou as expectativas, que já eram altas pelo muito que tinha ouvido falar de amigos. 

“Essa região da divisa com o Peru é a meca da biodiversidade, não tem nenhum lugar no mundo que tem uma variedade de animais, plantas combinadas maior do que aqui. Tudo que estou vendo é novo pra mim. Tem sido uma coisa fantástica e que vou levar pro resto da minha vida”, afirma Krajewski, que mantém também um perfil no Instagram (@jokrajewski) para mostrar os bastidores e as imagens de natureza que coleta ao redor do mundo.

Mirante do Divisor: visão 360 graus da imensidão da floresta amazônica

Mirante do divisor
O Mirante do Divisor fica até pequeno diante da floresta amazônica ao seu redor. Dali, a vista do nascer e do pôr do sol é única e diferente todos os dias. Foto: Thiago William

Seja para conexão, pesquisa, registro ou contemplação, a comunidade Pé da Serra tem atrativos que são visitas obrigatórias. A partir das pousadas, são poucos minutos pelo rio Moa até as trilhas que levam para diferentes cenários. 

Se a ideia é começar do começo, para ter uma dimensão de onde se está, a sugestão é iniciar pelo Mirante do Divisor, construído de madeira no topo da Serra do Moa, com cerca de 400 metros de altura. 

Exigindo um certo esforço, a caminhada em ritmo constante leva cerca de 40 minutos, sempre subindo, com a ajuda de trechos com escadas e apoio para as mãos. Outra boa pausa para retomada de fôlego é sugerida pelo guia Izaías Gomes, sempre atento aos pássaros e animais que podem ser observados ao longo do percurso. 

Vista do Mirante do Divisor no nascer do sol
Vista do Mirante do Divisor no nascer do sol. Além do espetáculo de cores, é possível observar a névoa e umidade subindo da floresta até o topo da serra. Foto: Daniel Nardin

Ao chegar no topo, a vista compensa. Os melhores horários são sempre no final da tarde, para o famoso último pôr do sol. Para isso, o início da caminhada precisa ser, no máximo,  às 16 horas. Assim, é possível chegar sem pressa e contemplar todo o espetáculo do final do dia. Outra boa opção, mas que exige disposição, é acordar de madrugada e iniciar a trilha por volta das 4 da manhã. 

A partir das cinco horas, o colorido em diferentes tons de azul começa a dar lugar ao rosa e amarelo suave das primeiras horas da manhã. O vento gelado da madrugada ainda se faz presente e o amanhecer justifica a noite em claro: é possível observar com facilidade a umidade que deixa a mata e sobe aos céus, fazendo a curva na serra e encobrindo como um cobertor o rio Moa e as matas próximas ao leito do rio e seus igarapés. 

Do alto, é possível ver a floresta amazônica em todas as direções. Ali é inevitável não se sentir pequeno diante da imensidão e agradecer pelo serviço que a floresta presta ao planeta. 

Afinal, se o mundo discute as mudanças climáticas causadas pelas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), silenciosamente a floresta capturou toneladas de carbono para sua biodiversidade. E continua capturando. Se essa floresta fosse desmatada, todo esse carbono acumulado seria emitido para a atmosfera e, além disso, uma imensa área deixaria capturar carbono para a continuidade do ciclo da vida nessa região, tão sensível quanto potente. 

“A floresta precisa desse ciclo. As árvores têm seu ciclo, capturam carbono e liberam oxigênio. Daqui de cima isso fica ainda mais evidente. E, olha: isso é só um pedacinho da nossa Amazônia, que a gente precisa tanto preservar e cuidar”, lembra o guia Izaías Gomes. 

registro da equipe do Amazônia Vox no Mirante do Divisor
A equipe do Amazônia Vox não resistiu e também fez seu registro no Mirante do Divisor, com pôr do sol ao fundo. Foto: Thiago William

O poço que marca o “quase” para um cenário completamente diferente

Observar e refletir sobre mudanças climáticas leva ao petróleo, uma vez que os combustíveis fósseis são a principal fonte emissora de GEE no mundo. E ali, esse pedaço de Brasil poderia não ser um Parque Nacional e sim um complexo industrial de extração petrolífera. O cenário, sem dúvida, seria bem diferente. A lembrança de um projeto para isso é o Buraco da Central, alguns metros da margem do rio Moa. 

Ali, no final da década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas, foi realizada uma ampla pesquisa e prospecção pelo Conselho Nacional do Petróleo. Do acampamento, ficou uma caldeira de ferro bruto, que alimentava as brocas que perfuraram cerca de 700 metros do subsolo. O petróleo não foi achado, mas sim o lençol freático, que até hoje traz para a superfície um fluxo constante de água morna. 

O tempo cuidou de ser caprichoso e o curso de água até o rio Moa criou pequenas piscinas naturais que, pela temperatura morna da água e a força da correnteza, lembram banheiras de hidromassagem. Um bom descanso para quem quer aliviar os músculos das caminhadas pelas trilhas. É comum encontrar grupos de turistas ou moradores locais, que aproveitam bem o espaço pela facilidade de acesso.

Buraco cenral
Com 700 metros de profundidade, o Buraco da Central é de fácil acesso, permite a entrada de uma pessoa por vez e a força da água não deixa afundar. Foto: Thiago William
Piscinas naturais criadas pelo fluxo da água
O fluxo de água criou pequenas piscinas naturais. A pressão da água e a temperatura morna lembram banheiras de hidromassagem. Foto: Thiago William
Maquinário deixado no acampamento
Parte do maquinário que foi deixado no acampamento. Um dia, a caldeira serviu para dar energia para a perfuração. Hoje, serve de suporte para mochilas e roupas dos visitantes. Foto: Daniel Nardin

A lembrança da tentativa de exploração de petróleo deixou outra marca. Um pouco mais distante das pousadas, cerca de 45 minutos pelo rio acima até o igarapé Pedernal e a cachoeira de mesmo nome, um ponto de corredeiras com águas cristalinas. Mais quatro quilômetros de trilha e então é possível encontrar o Buraco da Sonda, onde também continua o maquinário da época, como torre, caldeiras e outros equipamentos. 

“Essa é de um acesso um pouco mais difícil, por isso a maioria das pessoas gosta da experiência do Buraco da Central, que é bem próximo e elas acabam ficando por aqui para aproveitar outras experiências com mais tempo”, explica o guia Izaías Gomes. 

Cachoeiras naturais que não afastam: abraçam o visitante

Geralmente, cachoeiras altas criam quedas d’água com força que dificulta a entrada nas suas águas. Ou deixam o poço fundo, que não permite ficar por muito tempo. As cachoeiras da Serra do Divisor são o oposto disso. Começando pela Pirapora 1 e 2, irmãs que levam o mesmo nome por estarem no mesmo leito de água e bem próximas. 

A Pirapora 1 está na própria margem do rio Moa. Em épocas de seca, um banco de areia cria uma espécie de mini-praia. Alguns metros adiante pela trilha no meio da mata, está a Pirapora 2, com queda de água maior e uma piscina de águas cristalinas. Pela tranquilidade e menor risco, com baixa profundidade, as duas são as preferidas de famílias com crianças.

Cachoeira pirapora 1
A Pirapora 1, com águas calmas e queda baixa é geralmente o primeiro ponto de parada dos passeios. Foto: Thiago William
Cachoeira pirapora 2
A Pirapora 2 tem uma piscina natural. A baixa profundidade e pressão leve permite que os visitantes se sentem junto à sua queda, num momento tão refrescante quanto único. Foto: Thiago William

Outra atração bastante frequentada é a cachoeira Ar-Condicionado. O nome remete ao efeito refrigerador quanto mais se aproxima, com gotículas de água em toda a volta. A queda é de quase seis metros de altura, deixando a força das águas não tão potente a ponto de impedir o banho, mas o suficiente para uma boa massagem natural nas costas. O poço é raso e o cenário fica completo com vegetação densa e grandes pedras, que convidam para o silêncio e a contemplação.

Cachoeira do ar condicionado
De uma rara beleza, cercada de verde e grandes pedras, a cachoeira do Ar Condicionado está entre as preferidas dos visitantes. Foto: Thiago William
Cachoeira do amor
Alta, mas com o paredão reduzindo a força da água, a Cachoeira do Amor cria o efeito de um grande chuveiro natural. Foto: Thiago William

O meio termo entre as “Piraporas” e a Cachoeira do Ar Condicionado é a Cachoeira do Amor. Ela é a mais alta, com cerca de 20 metros. Porém, boa parte do curso da água desce pelo paredão de pedras até a abertura da fenda, criando o efeito que lembra um grande chuveiro natural. 

Ali, se o grupo de visitantes é grande, é preciso paciência ou combinar o tempo de cada um debaixo de suas águas. Afinal, é possível passar horas imerso com o som e o abraço das águas por todo o corpo. O nome da Cachoeira do Amor foi dado por Miro. 

Cachoeira formosa
Para chegar até a Cachoeira Formosa é preciso disposição: trilha de ida e volta somam 30 quilômetros. Foto: Setur-Acre

Segundo ele, quem estiver solteiro e querendo um amor, basta banhar-se em suas águas para engatar um novo romance em pouco tempo. “Aconteceu comigo mesmo, depois de um tempo que encontrei essa cachoeira e dei esse nome, pois ela ajuda a encontrar um amor”, jura Miro, da Pousada do Miro. 

De volta à pousada, o próprio local onde as rabetas atracam pode ser considerado outro atrativo. Seja debaixo das árvores para contemplar o céu ou mesmo com um banho às margens do rio Moa, estar na Serra do Divisor é aproveitar cada espaço, cada momento, cada cenário.

Os mais dispostos e com tempo são ainda desafiados para uma outra jornada. Com uma trilha de 15 quilômetros (30, considerando ida e volta) fica a Cachoeira Formosa. Para ela, no entanto, é necessário reservar no mínimo um dia. “Tem gente que possui preparo e consegue ir bem cedo, ficar um pouco e voltar, mas é arriscado e não recomendamos fazer esse bate-volta. O ideal é ir com equipamento e acampar, passar a noite lá e voltar no outro dia. A beleza dela vale esse esforço”, afirma Izaías.

A quantidade de dias para aproveitar ao máximo os atrativos da comunidade Pé da Serra, no Parque Nacional da Serra do Divisor, varia conforme o objetivo da viagem. Mas, no mínimo, a sugestão é de passar três dias para conhecer com calma as cachoeiras e trilhas. Contando o deslocamento de ida e volta a partir de Cruzeiro do Sul, são necessários cerca de cinco dias reservados pelo menos.

A experiência da travessia, da conversa com quem vive e integra a floresta e o contemplar da biodiversidade e os cenários formados pelo céu - tanto durante o dia como à noite - reforçam o quanto espaços naturais e preservados como parques nacionais são necessários. 

Um pedaço da Amazônia com gente que convive com a mata de maneira harmoniosa. Como diria Aílton Krenak, em “Ideias para adiar o fim do mundo”, a Serra do Divisor, no Acre, se apresenta aos visitantes como uma amostra grátis da Terra. Um “pedaço de planeta que a gente ainda não comeu e os netos e tataranetos - ou os netos dos nossos tataranetos - vão poder passear para ver como era a Terra no passado”. 

Reflexão na leve luz da manhã
A leve luz da manhã convida para a reflexão de mais um dia que se inicia neste pedaço de ‘amostra grátis da Terra’, como escreve Aílton Krenak. Foto: Thiago William

Singular e original, Acre tem no turismo potencial para aquecer a economia do Estado

Pequeno no nome, gigante em roteiros, história e identidade. “O Acre, por diversos motivos, é absolutamente singular e original”, resume o historiador e arqueólogo Marcos Vinícius Neves. Um passeio pela capital Rio Branco ajuda a entender um pouco da história recente do país e de um Estado que não só escolheu ser brasileiro: lutou para isso. 

O nome da capital não faz referência a um rio - o Rio Branco corta a capital de Roraima, Boa Vista - e sim ao diplomata Barão do Rio Branco, que em 1903 assinou, como Ministro das Relações Exteriores, a incorporação do território do Acre ao Brasil com o Tratado de Petrópolis, encerrando a Revolução Acreana e evitando novos conflitos armados.

Thaly Figueiredo
Thaly Figueiredo, da Destino Acre, defende que fomento ao turismo deve valorizar e gerar renda para moradores das comunidades. Foto: Thiago William

A história, porém, tem inúmeros detalhes, revoltas e reviravoltas. Um roteiro pelos prédios, praças, parques e museus da capital acreana ajuda a contar esses capítulos de uma história do Brasil que pouco se vê nos livros e nas escolas. 

Inclusive, o turismo cívico, gastronômico e cultural em Rio Branco vale tanto que a equipe de reportagem do Amazônia Vox vai produzir um novo conteúdo específico, em dezembro, dentro da série “Capitais da Amazônia”. 

O potencial do Acre em turismo atende a muitas possibilidades, como afirma a guia e empreendedora Thaly Figueiredo, da agência de turismo Destino Acre. Do urbano da capital às experiências nas reservas extrativistas ou em comunidades indígenas. “Venham com o coração aberto, porque a gente tem para todos os gostos e todos os bolsos também”, convida. 

Entre as apostas mais recentes, está justamente o turismo comunitário, que promove vivências. “A gente incentiva conhecer esses lugares, mas sobretudo conhecer as histórias e as pessoas que lá residem. A floresta não é só árvore, ela tem pessoas que residem dentro e essa é uma forma de, através do turismo, a gente preservar e conservar esses lugares”, complementa. 

Além de gerar renda direta nas comunidades, o turismo tem a força de movimentar a economia da capital, por onde chegam os turistas de fora e em cidades que servem de passagem até os destinos mais afastados de Rio Branco, como é o caso de Cruzeiro do Sul e de Mâncio Lima. “Ao invés de um jovem ir para a cidade atrás de uma oportunidade de trabalho, ele passa a ficar no território e tem novas oportunidades. E, da mesma forma, movimenta toda uma cadeia produtiva nas cidades”, reforça Thaly.

Ana Paula Boaventura
Ana Paula Boaventura é moradora de Rio Branco e nota no trabalho que desenvolve no Sicredi o quanto o turismo ajuda a aquecer a economia local.Foto: Thiago William

Para Ana Paula Boaventura, gerente de negócios do Sicredi Biomas, instituição financeira cooperativa que tem unidades pelo Estado, o turismo aquece diferentes setores, da hotelaria ao artesanato, passando por logística e alimentação. O turismo ajuda muito na economia local. Gera mais emprego e fomenta pequenos empreendedores e fortalece realmente o crescimento local e das pessoas que vivem aqui”, comenta. 

Para ela, o desafio é grande, mas tem havido um aumento nos últimos anos. "Existe uma movimentação de valorização da Amazônia, a gente percebe isso na mídia, nas redes sociais. Como moradora e acreana, fico muito feliz com esse reconhecimento, que é cada vez maior”, comenta.

Com o ‘coração aberto’ é possível ver e ouvir além do óbvio
Só com o ‘coração aberto’ é possível ver e ouvir além do óbvio pelos caminhos da Serra do Divisor, como orienta Thaly e Marcos. Foto: Thiago William

O mesmo sentimento de orgulho é compartilhado por Eva Maria da Silva, da pousada Caminho das Cachoeiras, no Pé da Serra do Divisor. Ela relembra um fato que a marcou, quando participou de um evento de divulgação do Estado, no Rio de Janeiro, no ano passado. Durante as conversas, ouviu os velhos comentários carregados de preconceito e ignorância contra sua terra. Mas, o que costumava ferir, agora dá força. 

“Ouvir essas coisas nos machuca. A gente se sente tão pequeno, fica triste. Mas aí depois eu ouço o que ouço dos turistas que vêm aqui e pensei comigo melhor. Não, não vou deixar, não vou ficar triste. Nós vamos mudar isso através da gente, que trabalha no turismo, dos muitos turistas que vêm e voltam. A gente vai se espalhando e cada vez mais mostrar que o Acre existe e temos orgulho de tudo que temos aqui”, resume. 

Contatos úteis

Agência Destino Acre - Thaly Figueiredo. Contato: (68) 992030358 @destinoacre

Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo - @sematur.ml

Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo - @sedeturczs

Comunidade Pé da Serra:

Pousada do Miro - Contato: (68) 99971-2127 - @pousadadomiro

Pousada Caminho das Cachoeiras - Contato: (68) 999675762 - @pousadacaminho_das_cachoeiras

Pousada Caminho Canindé - Contato: (68) 999460496 - @canindepousada